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Em seu primeiro dia, o Bett Brasil 2022 trouxe palestra sobre “Lições aprendidas pós pandemia”

Abandono e Evasão Escolar aumenta 170%, aponta PNAD 

O maior evento de educação e tecnologia da América Latina, o Bett Brasil, realiza essa semana (10 à  13 de maio) o primeiro evento presencial pós-pandêmico. A palestra “Lições aprendidas pós pandemia”, ministrada por Ricardo A. Madeira, do Por A+B e Kátia Stocco Smole, do Instituto Reúna, bem como moderada por Monica Guerra, da Associação Parceiros da Educação, discute as dificuldades na educação deixadas pela pandemia, e o retrocesso que a mesma trouxe ao país. 

“Antes da pandemia, vínhamos registrando alguns casos de sucesso, de melhorias consistentes nos indicadores educacionais, tanto no de fluxo, quanto nos indicadores de aprendizado […], temos redes e estados que vinham sistematicamente conseguindo melhorar seus resultados e implementar políticas que têm um impacto positivo nos dados. No entanto, quando comparamos redes com níveis de investimento e condições socioeconômicas parecidas, já tínhamos resultados muito diferentes. Isso indica que, apesar desses casos de sucesso pré-pandêmicos, ainda tínhamos muita heterogeneidade nessas redes. Principalmente quando levamos em conta a desigualdade socioeconômica e racial dos nossos resultados educacionais […]” Explica o Prof. Dr. Ricardo A. Madeira, co-fundador do Por A+B, uma iniciativa que analisa e traduz dados para encorajar novos sentidos na educação. 

Segundo o Professor Madeira, durante o cenário pré-pandemia existiram algumas mudanças importantes nas políticas educacionais, como a aprovação do novo FUNDEB, a implementação da BNCC (Base Nacional Comum Curricular), e a adesão do Novo Ensino Médio. Sendo o país com maior tempo de escolas fechadas no mundo, como informa o relatório da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE),  o “Education at a glance 2021”, o Brasil enfrentou uma grande variação na capacidade de oferta de ensino a distância oferecido pelas escolas, que foi ainda mais acentuado pela diferença socioeconômicas  e racial da população atendida. Entre as maiores dificuldades relatadas estão a falta de acesso à internet, a falta de equipamento e condições domiciliares precárias. “O Brasil tinha um desafio enorme por conta das suas condições de oferta, passando muito tempo com as escolas fechadas, e agora estamos começando a conectar os primeiros resultados. Os resultados indicam uma perda muito relevante de aprendizado e um aumento enorme na evasão e abandono.”, comentou Madeira.  

Abandono e evasão escolar 

Até o momento, não há nenhum dado de representação nacional que mostre os reais impactos da pandemia, a prova do Saeb 2021 (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica) que ajudaria nessa coleta de dados, ainda não foi divulgado. Outro indicativo, o Censo Escolar, utilizado principalmente para calcular a evasão e abandono escolar não é mais considerado confiável, já que muitos municípios usaram a matrícula automática, onde a família ou responsável do aluno não precisa comparecer à escola para a matrícula, trazendo assim  um falso baixo índice de abandono. Entretanto, os primeiros passos em busca desses dados já estão acontecendo, a PNAD Contínua (pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), por exemplo, divulgou o relatório do segundo trimestre de 2021, onde aponta um aumento de 171,1% na evasão escolar de crianças e jovens de 6 a 14 anos, e um aumento significativo no número de jovens de 15 a 17 anos que estavam frequentando etapas educacionais anteriores (Ensino Fundamental regular, EJA do fundamental, ou Alfabetização de jovens e adultos): de 1,6 milhão em 2020 para, aproximadamente, 1,9 milhão em 2021.

“Em São Paulo, por exemplo, temos a prova SARESP […] que nos ajudam a medir, com uma certa robustez, as perdas de aprendizagem. O que a gente encontra é que, para determinadas séries existem a perda de até 10 anos. Ou seja, se continuarmos a caminhar no mesmo ritmo pré-pandêmico, vamos levar 10 anos para voltar aos índices obtidos antes da pandemia” , diz o professor Madeira.   

Competências socioemocionais 

Outro ponto abordado na palestra foi o impacto da pandemia nas competências socioemocionais dos alunos, que hoje são diretamente garantidas pelo BNCC. As principais competências expostas no currículo são: Comunicação; Trabalho e projeto de vida; Argumentação; Conhecimento e autoconhecimento; Empatia e cooperação; Responsabilidade e Cidadania.

“Temos no momento algumas medidas de aspecto socioemocionais que foram feitas em escala em algumas escolas. São Paulo fez um esforço enorme de aplicar uma prova de competências socioemocionais em nível censitário, e o que a gente encontra é uma deterioração muito grande em relação ao que a gente tinha antes da pandemia […] Temos evidências muito fortes, que essas competências socioemocionais são muito importantes para o desenvolvimento integral do jovem.” expõe o Prof. Dr. Ricardo A. Madeira, que busca propor, ao final de sua fala um repensamento de mudança das políticas educacionais para tentar contornar a defasagem decorrente da pandemia, “Esses não são problemas de curto prazo. Não temos ainda um entendimento completo das consequências da epidemia, mas já sabemos que vamos ter que lidar com isso por muitos anos. Isso vai exigir uma experimentação de políticas: Vamos ter que experimentar e aprender com políticas educacionais em uma velocidade nunca antes vista no país.” Finaliza.    

Desafios 

A Drª Kátia Stocco Smole, diretora do Instituto Reúna continuou a discussão apontando alguns desafios já enfrentados, “Nós todos, e não digo somente escolas, estamos um uma das situações – talvez a mais – desafiadora que nós já vivemos. Em nenhum momento da história, mesmo em greves muito longas, não se tem notícias de uma paralisação tão grande.” Lembra a Drª Smole, que também é fundadora do do Grupo Mathema, “Muitas cidades e estados passaram mais de 2 anos sem aula presencial. Alguns sem atividade nenhuma nesse período.”, ressalta. 

Segundo a Drª, os melhores dados e diagnósticos são aqueles colhidos pelas próprias redes. “Esse diagnóstico não pode ser no começo do ano e nunca mais, eu preciso fazer o primeiro diagnóstico e ir trabalhando com esses dados. A minha perspectiva é mais pedagógica. A avaliação formativa, por exemplo, nunca foi tão importante para nós pensarmos e apoiarmos os estudantes nas suas aprendizagens.”.  

“Prognóstico é prognóstico, eles não precisam se tornar realidade” ressalta Drª Kátia Stocco Smole  

Ambos os palestrantes concordam que, para que esses prognósticos desfavoráveis não virem realidade, é preciso pensar em ações, sejam elas políticas educacionais, públicas, estaduais, municipais ou de rede.    

Abordagens pedagógicas

Stocco explica, em uma abordagem mais pedagógica, outras dificuldades enfrentadas, “As perdas não foram somente cognitivas, a questão não é só quanta matemática eu deixei de aprender. Quem está na escola com a educação infantil, nos anos iniciais, ou no ensino médio, com os anos finais, estão vendo outras coisas: As crianças estão menos autônomas, os jovens estão estranhando viver um com os outros, entre outras coisas. Temos, portanto, uma questão de saúde mental e não somente questões envolvendo competências socioemocionais.” 

A escola, mesmo com suas dificuldades, deve se tornar acolhedora para toda a comunidade envolvida na sua manutenção, “Nós não voltamos de férias, e portanto nós deveríamos aproveitar bastante para fazer lições aprendidas e pensar como a gente acolhe as famílias, a comunidade, professores e os estudantes.  Não é para começar a aula e fazer uma semana de prova diagnóstica e seguir como se estivéssemos voltando de férias. Não é essa a situação, nós temos crianças e adolescentes órfãos, temos professores que sofreram perdas. Não vamos dar conta de tudo, e precisamos de um planejamento que entenda isso, pois se temos um planejamento que diz ‘que bom que voltamos, vamos tocar o barco”, nós não vamos conseguir recompor as aprendizagens.”, comenta Kátia. 

Ajuda a escolas é importante, mas não da forma como você pensa

A escola consegue garantir a aprendizagem, mas a escola pós-pandemia precisa ir muito mais além, “Não dá para dizer ‘o professor precisa, o professor deve, o professor tem’. Os professores vão ter um papel muito importante nesse momento, mas as ações da rede, dos gestores escolares, a escola como um todo deve fortalecer as ações e ter um planejamento. […] A escola talvez precise de ajuda de outros profissionais, eu tenho certeza que vai precisar. Então quando o Ricardo fala de políticas públicas, nós estamos falando de uma política muito abrangente de olhar equipamentos sociais que precisamos para nos apoiar.”  

Por fim, a moderada Mônica Guerra abriu uma sessão de perguntas, onde as dúvidas do público foram respondidas. 

Bárbara Cardi Camarini

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