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O retorno das armas químicas

Grécia Antiga. Lar da filosofia ocidental, dos Jogos Olímpicos, da democracia… E de terríveis armas químicas. Seiscentos anos antes de Jesus Cristo nascer, tropas atenienses já contaminavam todo o suprimento de água da cidade de Kirra. Aconselhados por um médico não muito ético, os oficiais atenienses decidiram usar a planta Heléboro (Helleborus, em grego, ou  “comida mortal”) para envenenar seus adversários e massacrar a cidade inimiga que resistia ao cerco. Após 229 anos, foi a vez dos atenienses experimentarem do próprio veneno. Na Guerra do Peloponeso, em que enfrentaram os espartanos, seus adversários queimavam enxofre com objetivo de sufocá-los. Exemplos como esses podem ser encontrados na antiguidade da Índia, China, Roma e, também da nossa América do Sul, onde os nativos utilizavam flechas envenenadas com curare.

No século XIX, explodiu a guerra química moderna. “O surgimento de bombas incendiárias de arsênio, que liberavam nuvens de fumaça tóxica marcou esse início. Os soldados atingidos tinham espasmos musculares, vômitos intensos, colapso cardiovascular e morte em poucas horas”, diz Camilla Colasso – toxicologista, especialista em armas químicas e diretora técnica da Chemical Risk. O auge da guerra química se daria na Primeira Guerra Mundial, em que, principalmente, os gases clorídrico e mostarda mataram 90 mil pessoas.

Desde o Protocolo de Genebra, em 1925, o uso de armas químicas é proibido e considerado crime de guerra. Em 1993, a fabricação e o armazenamento também passaram a ser impedidos com a Convenção sobre armas químicas. “O fundamento moral é que essas armas são cruéis, causam sofrimento excessivo e desnecessário e podem, indiscriminadamente, atingir civis causando dor e sofrimento injustificáveis em qualquer situação”, explica Maria Laura Canineu, advogada, mestre em Direito Internacional e diretora do escritório brasileiro da Human Rights Watch.

Entre 1961 e 1971, cerca de 80 milhões de substâncias herbicidas desfolhantes foram despejadas nas florestas do Vietnã pelos EUA, entre elas o tóxico Agente Laranja. A justificativa para o uso era matar a vegetação e identificar mais facilmente os vietcongues combatentes. Porém, seu uso fez com que vietnamitas sofram até hoje com deformações congênitas e outras doenças relacionadas a essa substância.

Não é só os EUA que deram um jeito de burlar o Protocolo de Genebra. Em março de 2018, um ex-espião russo foi encontrado desacordado junto com sua filha, em Salisbury, cidade da Inglaterra. A suspeita é de envenenamento pelo agente tóxico Novichok. A Rússia foi acusada pelo ataque por EUA, Alemanha e Reino Unido, mas negou qualquer envolvimento e alegou ter destruído todos seus estoques desde a Convenção sobre Armas Químicas. O caso ainda está sendo investigado pela OPAQ.

No conflito da Síria, entre o governo do ditador Bashar al-Assad e grupos rebeldes, que começou em 2011, já houve cerca de 85 ataques químicos de acordo com a ONG Human Rights Watch, que faz o levantamento desde 2013. O mais recente deles aconteceu no dia 7 de abril, em Douma, cidade do território dominado por opositores do governo. De acordo com informações oficiais, 42 pessoas morreram. O ataque em Douma não foi assumido por Assad. Mas, foi o estopim para que os EUA, a Inglaterra e a França bombardeassem na madrugada de 13 de abril as cidades sírias de Damasco e Homs, atingindo alvos que, de acordo com o Pentágono, estão ligados a produção, armazenamento e pesquisa de armas químicas. Rússia e Irã, aliados de Assad, discordaram das ações e alegaram que o ataque químico foi uma encenação.

“O Conselho de Segurança das Nações Unidas já condenou ataques químicos na Síria em várias ocasiões, mas, reiteradamente, a Rússia e a China têm se utilizado de seu poder de veto para impedir sanções ao governo sírio. Os responsáveis podem ter interpretado a falta de consequências como uma carta branca para conduzirem mais ataques e ameaçam comprometer a forte proibição contra armas químicas existente na legislação internacional, levando a um encorajamento do uso desses armamentos por outras partes.”, alerta Maria Laura Canineu.

Ilustração: Raphael Mortari

Giacomo Vicenzo & Fred Di Giacomo

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