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O que é lutar como uma garota?

O mês de março marca a luta das mulheres por maior representatividade, visibilidade e igualdade de direitos na sociedade contemporânea, e também joga luz sobre uma frase de uma campanha publicitária, que ganhou o mundo após ter sido lançada em 2014 durante o Super Bowl: “Fight Like a Girl” (conheça a campanha “Like a Girl” aqui).  Mas o que significa “Lutar como uma garota?”. Perguntamos a quatro mulheres que se destacam em suas trajetórias: elas falam sobre trabalho, cultura social, história, machismo e conquistas femininas.

O que significa “Lutar como uma garota”?

“Lutar como uma mulher é uma tarefa extremamente difícil, um desafio grande a ser superado, mas é claro que tudo depende da forma como você foi criada e preparada para esse mundo. Tive uma educação bastante libertadora: fui a décima filha de uma família de 14 filhos, e sempre fomos incentivados a lutar e a batalhar por aquilo que quiséssemos. Venho dessa raiz, mas o mundo porta afora é muito difícil para a mulher.

Precisamos provar o tempo todo a nossa capacidade, precisamos de dedicação exclusiva para que a gente alcance aquele objetivo. Eu comecei a me destacar muito jovem, passei no vestibular com 15 anos e me formei em educação física pela Universidade Federal do Paraná. Tive uma liderança grande no movimento estudantil nos anos 80, quando lutávamos pela  redemocratização do processo político do país.

Nessa época, tive um namorado mais velho que, de uma maneira muito cruel, tentou tirar a minha vida, usando álcool e fogo. E começaram os desafios com essa questão de  gênero, ou seja, tudo isso começou a ser construído na minha vida, porque não é uma realidade com a qual eu tivesse lidado: questões de gênero e, muito menos, violência. Tive que lutar duramente pela preservação da vida, contando com o auxílio da minha família, que me deu dinheiro, carinho, tempo e até pele: dois dos meus irmãos, o Gilberto e o Nino, me deram pele para a salvar minha vida nas cirurgias reconstrutivas.

Os desafios, sempre muito grandes, foram enfrentados da maneira que acho que precisam ser  enfrentados: devemos olhar para aquele problema e transformá-lo em solução. Eu trabalho na área da queimadura, que é um grande desafio no nosso sistema de saúde, porque não é especialidade autônoma. Ajudei na construção de uma rede de proteção, como a Sociedade Brasileira de Queimaduras, e, como política eleita, consegui interferir na decisão para instalação de uma unidade de queimados  dentro de um hospital público, o Hugol (Hospital Estadual de Urgências da Região Noroeste de Goiânia Governador Otávio Lage de Siqueira), em Goiânia. É a primeira vez que um hospital público do Estado de Goiás comporta uma unidade de queimados. Outra luta é o espaço político no Brasil, um ambiente absurdamente masculino.

Lutar como uma mulher é trabalhar triplicado, não tenho dúvidas disso. É ser incansável e ter disposição e renovação diárias para enfrentar essas dificuldades, que são muito mais presentes na vida e na carreira de uma mulher.”

Cristina Lopes é fisioterapeuta e vereadora em Goiânia (GO) pelo PSDB. Há 32 anos, foi atacada pelo ex-namorado, que jogou álcool e ateou fogo em seu corpo, depois que ela decidiu romper o relacionamento. Ficou com 85% do corpo queimado. Hoje, além da função pública, ela se dedica a militar por queimados e mulheres vítimas de violência doméstica.


“Lutar como uma garota é enfrentar as adversidades, fazendo uso dos cinco sentidos. É combater com afeto e lutar com carinho, é conter com abraço, é sentir o gosto agridoce do próprio sangue e encarar isso como o contato com sua humanidade. É sentir o vento árido do deserto e saber o momento exato de cobrir a face ou se expor. É sentir o frio congelando os seus pés e ainda assim precisar caminhar para cuidar de gente. É acolher as diferenças que segmentam as culturas, é saber que devagar também é pressa. É sair pelo mundo, mesmo sabendo que o mundo nunca parece girar para o mesmo lado que você gostaria. É desfazer nó de pensamento e saber desarmar armadilhas que te aprisionam em um mundo machista. É criar raízes e cortá-las quando já não forem necessárias. É poder viver num mundo sem fronteiras.”

Débora Noal é psicóloga e integrante da organização internacional Médicos sem Fronteiras, por meio da qual já participou de 15 missões pelo mundo. É autora do livro “O Humano do Mundo” (editora Astral Cultural) em que relata suas experiências como psicóloga da organização.


Lute como uma garota! Lute como uma mulher! Essas frases trazem motivação e inquietação. O verbo “lute” é no sentido de resistir, de ocupar os espaços por mais direitos às mulheres e meninas, de ser contra as violências aos nossos corpos, de saber e reivindicar que nosso local é onde quisermos estar.

Não se trata de “mimimi feminista”, como dizem. Até porque, feminismo não é mimimi. É a ideia radical de que mulher é gente. De que mulher deve e pode ter os mesmos direitos que os homens. De combater todas as formas de opressões. De lutar por liberdade. De sermos livres! Nós somos fortes.

Nós chegamos em um momento histórico que não aceitamos mais que as mulheres sejam mortas, que as mulheres ganhem menos, que as mulheres não possam estudar, que as mulheres sejam obrigadas a casar e ter filhos, que nós tenhamos que ser obrigadas a fazer o que não queremos. É tempo de dizer “não” a tudo o que nos violenta e invisibiliza. É tempo de resistência. É nosso tempo. Fight Like a Girl! E, quando uma sobe, puxamos a outra! Vamos juntas?”

Keka Bagno é assistente social, conselheira tutelar, representante do Fórum das Mulheres do Distrito Federal e integrante dos movimentos Marcha das Mulheres Negras e Marcha das Flores.


“A campanha Fight Like a Girl é importante para estimular a reflexão. Pessoalmente, posso dizer que, por ter nascido menina, nunca tive gente em volta me rotulando ou me impedindo. Sempre ouvi que eu poderia fazer qualquer coisa que eu trabalhasse para conseguir. Sinto-me privilegiada por isso. Acredito que as discriminações, preconceitos e assédios que ocorrem na vida adulta influenciam menos quando a autoestima e a autonomia tiverem sido bem fortalecidas na infância. Mas esse privilégio, infelizmente, não atinge a grande maioria das mulheres em todo o mundo, e muitas nem percebem que recebem um tratamento diferenciado por conta do gênero feminino.

A campanha Fight Like a Girl mostra que as frases simples que usamos, do tipo “como uma mulher/como uma menina”, são depreciativas. Nem notamos quando menosprezamos a mulher. Ao longo do experimento, as pessoas adultas vão tomando consciência de que reproduzem uma convenção social, uma maneira estereotipada de enxergar a mulher como um ser singelo, o que é errado, depreciativo. É importante ressaltar que o papel da mulher na sociedade, a partir dos anos 50, é bem diferente em relação a décadas passadas. Vivemos mudanças de expectativas, experimentamos mais flexibilidade e dinamismo nas nossas ações e escolhas. 

E, ao longo da história, muitas mulheres vêm se diferenciando por seus feitos, suas conquistas. Por isso, é absurdo considerar que cabe à mulher valorizar sentimentos e expressões, como o amor e o carinho, por exemplo, como se isso fosse inerente ao gênero feminino. Não é inerente! (os homens, certamente na minha vida, também são responsáveis por carinho e amor). Mas voltando à mulher, essa atribuição equivocada é um reflexo do machismo que ainda domina na sociedade e que tanto me espanta. Colocar a mulher com esta função desequilibra qualquer relação e deposita a responsabilidade somente nela. Ao mesmo tempo, o uso desse jargão “é coisa de mulher” é depreciativo. Até nos países nórdicos europeus, onde a mulher já conquistou espaços de poder, ainda há episódios discriminatórios contra a população feminina.

É assim: embora as mulheres consigam equidade com os homens em determinadas sociedades, ainda são agredidas apenas por serem mulheres. É um contrassenso. Li recentemente pesquisas sobre organização do trabalho. Na Espanha (e não acredito que no Brasil e nos Estados Unidos seja diferente!), mulheres e homens, em geral, têm a mesma carga de trabalho, mas as espanholas acabam somando a essa carga as atividades domésticas, por isso, trabalham mais. Será que escolhem essa divisão de trabalho ou obedecem a uma convenção? Serão julgadas se não aceitarem isso? Onde está escrito que uma mulher limpa um vaso sanitário melhor do que um homem? É um desequilíbrio, que precisa ser continuamente debatido e questionado.”

Sara Hughes é educadora, economista com especialização em administração e diretora-geral da FourC Bilingual Academy, em Bauru.


Conheça a campanha
A campanha “Like a Girl” foi desenvolvida pela marca de absorventes femininos Always, da P&G, e lançada há quatro anos. Começou com um experimento: num estúdio, diante de câmeras, adultos foram convidados a simular uma corrida ou uma luta “como se fossem uma garota” (“like a girl”). Eles demonstraram gestos afetados e desajeitados, reforçando os estereótipos negativos associados às mulheres. Na sequência, meninas foram convidadas a encenar as mesmas situações. Ao contrário dos adultos, elas se mostraram confiantes e concentradas, comprovando que o hábito de depreciar uma mulher é um comportamento muitas vezes involuntário e assimilado ao longo da convivência social – portanto, mais solidificado em adultos. O vídeo ganhou 14 leões no Festival de Cannes, um Emmy e já foi assistido no YouTube por mais de 64 milhões de pessoas.

 

 

Fernanda Villas Boas

Comentários

  • Lendo este texto, pude ver um pouco melhor sobre outras realidades com base no fato de sermos mulheres e, pensando na história de Cristina Lopes, percebi que não fiquei tão chocada quanto seria esperado, e isso não é um bom sinal. Ainda nem me formei no ensino médio, mas consigo observar obstáculos que as mulheres sofrem até hoje. Tendo em vista tantas situações como as citadas acima, compreendi que tenho muito o que agradecer, pois vivo em uma família e escola que sempre me encorajam a ser minha melhor versão e nunca me diminuíram por ser uma garota. De qualquer forma, acredito que campanhas como “Lutar como uma garota” são essenciais. Tenho noção e já presenciei casos em que somos rebaixadas e ridicularizadas, e isso não é de hoje e não será resolvido amanhã. Por isso, mesmo que nossa geração não presencie uma mudança completa, devemos nos esforçar para que nossas filhas e netas possam viver em uma sociedade justa e igualitária, onde tenham todas as oportunidades e direitos.

  • O texto diz que mulheres sofrem com o machismo dominante na sociedade. Não posso dizer que é mentira, pois sou mulher e sei que não é fácil, porém, temos que tomar cuidado para não nos tornarmos femistas, dizendo que mulheres são superiores, mas sim feministas, lutando pela igualdade de gênero.
    Concordo plenamente com o texto e todos o depoimentos, apenas percebi que algumas mulheres acabam se tornando tão desrespeitosas com os homens quanto muitos homens sao com as mulheres.
    Não adianta querermos ser tratadas com respeito se tratamos os outros sem respeito.