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O outro lado do Enem

Cravado como um ranking no senso coletivo, o exame torna-se mais polêmico a cada dia, seja para pais, filhos ou mesmo profissionais da Educação

L.R., 41, é professor de ensino médio e superior há, pelo menos, sete anos. Desde que abandonou as redações de jornal, passou a dedicar sua vida às salas de aula. Divide-se em duas escolas, manhã e tarde, faculdade todas as noites. E, nas poucas horas livres, nenhuma possibilidade de montar aulas diferenciadas ou mesmo aperfeiçoamento da própria técnica ou da didática. As pilhas acumuladas de trabalhos e provas a serem corrigidas não podem esperar. 

Sobre as cobranças relacionadas à esta época do ano, onde pipocam “rankings” e tabelas comparativas de escolas e alunos por conta da divulgação das notas do Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem, L. se mostra visivelmente cansado e tenta explicar, com certo incômodo, como este acaba se transformando no seu teste de fogo anual, seja qual for o estabelecimento educacional por onde passar. 

Criado em 1998, o “temido” Enem, de acordo com o próprio Ministério da Educação (MEC), tem “o objetivo de avaliar o desempenho do estudante, ao fim da escolaridade básica”. Ainda de acordo com a Instituição Governamental, “é utilizado como critério de seleção para os estudantes que pretendem concorrer a uma bolsa no Programa Universidade para Todos (ProUni). Além disso, cerca de 500 universidades já usam o resultado do exame como critério de seleção para o ingresso no ensino superior, seja complementando ou substituindo o vestibular”.

Os testes de avaliação são produzidos, aplicados e avaliados pelo Inep, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, uma autarquia federal vinculada ao MEC. A “missão”, de acordo com a entidade, é subsidiar a formulação de políticas educacionais dos diferentes níveis de governo, com o intuito de contribuir para o desenvolvimento econômico e social do país. 

No próprio site do Ministério, o Enem se apresenta como um dos “indicadores da educação básica”. Essas medidas  foram construídas a partir dos diferentes dados produzidos pelo Inep e  ajudam no processo de avaliação educacional. São úteis, principalmente, para o monitoramento dos sistemas educacionais, considerando o acesso, a permanência e a aprendizagem.

Um pouquinho de história de como a avaliação dos estudantes transformou-se em uma competição

O ENEM tem se tornado uma competição de resistência entre os estudantes

Nem sempre foi assim. Quando o Enem foi idealizado, ainda não era uma prova de acesso à universidade, era somente um verificador. Não tinha a redação como parte obrigatória, por exemplo. Apenas alguns anos depois que ela  foi sendo implementada em alguns vestibulares, ainda na primeira fase.

Até 2017, o MEC realizava o chamado “Ranking do Enem por escolas”. A pasta divulgava, até aquele momento, uma lista com as todas as notas médias do país. Entretanto, mesmo com ressalvas, o Ministério entendeu que os dados eram utilizados de maneira equivocada pelas próprias instituições educacionais.

Entre algumas das consequências da divulgação dessas notas, está utilização das médias mais altas em forma de publicidade por algumas escolas e até mesmo a montagem premeditada, para o ano letivo seguinte, de salas com alunos considerados “de elite” para, naturalmente, obter um resultado ainda melhor e exibi-lo a toda a comunidade de interesse. O índice não considera as turmas, mas o CNPJ da instituição. Desta forma, uma manipulação que se tornou comum foi, justamente, a separação das turmas matriculadas em CNPJs diferentes, embora numa mesma localidade.

À época das mudanças, a então presidente do Inep, Maria Inês Fini, afirmou que as alterações eram uma antiga reivindicação de especialistas em educação. “O Enem não avalia escola, avalia o estudante e isso é só um dos muitos indicadores para poder avaliar uma escola.”, disse durante uma coletiva realizada em março daquele ano, em Brasília. 

O ex-ministro da Educação, Mendonça Filho, declarou que “o ranking das escolas é utilizado como propaganda e não é missão do Estado brasileiro estabelecer esse ranking, ele produzia desserviço e desinformação.” Até o Governo Federal interviu naquele momento, afirmando que um “ranking único de escolas no Enem” era como “uma luta Ronda x Minotauro.”

Entre outras mudanças importantes, anunciadas há mais de dois anos e vigentes até o momento, está a participação de mais de 7,5 milhões de estudantes no Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb). Desses, 2,4 milhões são alunos do 3º do ensino médio público e privado. Além disso, as provas começaram a ser realizadas em dois domingos consecutivos e os cadernos de prova se tornaram personalizados. Alguns alunos também passaram a ser isentos de taxa de inscrição.

Declarações à parte, as escolas com o terceiro ano do ensino médio passaram a ter, a partir de março de 2017, apenas o chamado Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) como único indicador de qualidade disponível.

Acabou, mas continua… 

…Sem os dados do Inep, os “rankings” acabaram, certo? Nada disso…

Reportagem do mês de junho do jornal Folha de S.Paulo abria com a seguinte manchete: “Colégio particular do Piauí lidera ranking do Enem 2018 por escola”. E continuava nas primeiras linhas: “A unidade particular de Teresina desbancou o colégio de Minas, que por cinco anos, registrou o melhor desempenho no exame”. O texto seguia, acompanhado de uma tabela dividida em posição, escola, cidade e nota média da parte objetiva. Ou seja, sem a redação, parte imprescindível para a composição da avaliação.

Mas, como isso foi possível, se este ranking, em tese, não existe mais? Simples: o próprio jornal tabulou as médias, a partir da base de dados divulgada pelo MEC. No entanto, a análise de resultados excluiu, entre outras variáveis, escolas com menos de dez alunos. Além disso, considerou apenas estabelecimentos educacionais com, pelo menos, 63 estudantes no 3º ano do ensino médio. 

Isto representa, de fato, uma análise completa? Mais do que isso: uma tabela pode contemplar toda a amplitude e delicadeza da qualidade do ensino no país? Pode demonstrar como os nossos estudantes aplicam e compartilham conhecimento, nas salas de aula e na vida, como cidadãos? Fica aí uma interessante reflexão…

Enem educa?

Será que nossa primária ânsia de competição é medida adequada para algo tão importante?

Nos últimos anos, o Enem se tornou uma das portas de entrada para as universidades federais

Um dos grandes debates dos profissionais da educação em relação ao Enem , está centrado na questão competitiva do formato. Formato esse, que foi construído com alguma solidez ao longo do tempo pelas próprias instituições governamentais. Com isso, apesar de existir mudanças e adaptações, ainda paira no imaginário popular, como se fosse uma regra. Assim, quantas vezes você já se pegou dizendo que “saiu o ranking do Enem”, que sequer existe?

Mas, a popularização do modelo gera, até hoje, sérios problemas. Uma enorme expectativa nos pais, uma desmedida cobrança dos estudantes e, sem dúvida, desgastes inimagináveis com as escolas são apenas alguns deles. E um ambiente saudável para adolescentes em estado de tensão e apreensão também perpassa pela relação forte entre todas as instituições envolvidas – casa, família e escola.

Beatriz Macedo, Pedagoga e Psicopedagoga da Faculdade Senac/RJ, já teve larga experiência com estudantes do ensino médio. Atualmente, embora afastada deste cenário, ainda recebe muitas demandas de alunos da Universidade onde trabalha. São sujeitos em início de fase adulta, frustrados por não terem conseguido obter a média necessária para uma vaga garantida nas faculdades públicas, uma das propostas do Enem.

“O Enem hoje é um teste de esforço. São dois dias exaustivos, onde o aluno sai de casa às 11 horas, e volta pra casa às 20h. Horas e horas de prova, 180 questões mais uma redação… é um teste de resistência! É também uma forma de romantizar esse esforço sobrehumano a que o estudante é submetido”, ela explica.

O presidente substituto e Diretor de Tecnologia do INEP, Camilo Mussi, concorda e corrobora com a especialista. Em entrevista exclusiva para o 4lab, ele complementa.

“Não é um ranking, não é uma avaliação processual, trata-se sempre, para nós, do aluno, não das instituições. Classificar instituições educacionais não é crime, mas não tem nenhum embasamento científico, nem mesmo pedagógico. Além disso, é importante lembrar que muitas destas escolas preparam seus estudantes exclusivamente para o Enem, sem pensar em perspectivas reais de aprendizagem. E isso precisa ser notado com atenção pelos pais”.

Beatriz indica algumas das severas críticas que os criados “rankings” ajudam a exacerbar, na cabeça e no sentimento dos adolescentes.

“O que é feito hoje em dia é o rankeamento do ensino superior. A indústria para o vestibular é inimaginável, tendo desde canais de Youtube, cursinhos, até o chamado “Viradão”, onde as pessoas passam uma madrugada toda estudando. Claro que educação pública, de qualidade, é um direito de todos, ricos e pobres. Porém, em um país com defasagem de ensino básico, diferentes alunos não têm o mesmo escopo de conteúdo e de competências escolares de um estudante da rede particular, o que dificulta e acirra essa comparação nada saudável”.

Enquanto esse formato permanece, L.R. faz exames médicos para dar aula em uma quarta instituição educacional. Foi convidado enquanto esta matéria era redigida, coincidentemente. E não poderia dizer não a mais esta possibilidade de renda.

“É romântico dizer que não é um ranking. Entendo que ele seleciona e é o único meio para muitos estudantes para levá-los a uma universidade federal. Quando foi criado, ele até tinha uma lógica de avaliação de aprendizagem. Mas, hoje tomou outras proporções, fugiu do caráter original, de 10 anos pra cá”, opina o profissional.

Mussi destaca, ainda, que o Ministério da Educação não consegue impedir que resultados compilados dos alunos sejam utilizados como publicidade pelas instituições. Mas, rechaça completamente esta versão e diz que recusa milhares de demandas das escolas, neste sentido.

“Nem todos os estabelecimentos educacionais de determinada região têm todos os seus alunos contemplados com o exame. Somente esse fato já deixa dúvidas sobre os cálculos que são feitos em cima dos dados permitidos”, ele diz.

“O que nós divulgamos, e apenas isso, são microdados individuais, que deveriam ser utilizados como uma promoção de melhorias e uma forma de devolver ao ensino, de modo mais amigável, tais dados para repensar a estratégia pedagógica, para os anos seguintes. Infelizmente, não divulgar os dados escolares prejudica, inclusive, as escolas realmente sérias, que fazem uso real das questões aplicadas mais complexas para aplicação pedagógica, e não para divulgação comercial”, complementa.

Na pele

Como alguém quem esteve diretamente envolvido enxerga todo este processo?

Roberto Caliani Janeiro é professor de Língua Portuguesa para o Ensino Médio e Pré-Vestibular.  Atuou por três anos corrigindo provas do Exame Nacional. Atualmente, está licenciado da função. O filho está prestes a se candidatar para a avaliação e há um impedimento legal em sua participação direta.

Para ele, o antigo formato, com a prova em único dia, era muito mais exaustivo para alunos e professores. Porém, com as mudanças mais recentes, o especialista acredita que houve, sim, uma nova construção para a avaliação. 

“Naquela época, havia um cansaço físico e mental muito maior, um grande esforço, uma pressão psicológica. Eram 10 horas muito cansativas. Dividir o exame em dois dias melhorou muito. Porém, o Enem é uma prova exaustiva justamente porque vai trabalhar com várias habilidades e competências”, ele conta. Janeiro aponta, inclusive, que o número de questões poderia ser reavaliado. Para ele, poderia se dar mais espaço às Ciências Humanas e da Natureza, por exemplo,.

Em conjunto com essas mudanças apontadas por Roberto Caliani Janeiro, Camilo Mussi destaca a proposta do Governo Federal em transformar o exame em uma ferramenta digital. Inclusive, tendo as primeiras experiências já em 2019, com cerca de 10 mil alunos. Mas, o professor Roberto, apontou um tópico de reflexão nesta aparente evolução. 

“Ter uma prova totalmente digital pode ser um componente importante. Isso se torna ainda mais relevante pelo montante de dinheiro investido na logística das aplicações e correções. Entretanto, digitalizar também o exercício da redação, por exemplo, pode não ser benéfico. Esta tarefa manuscrita nos proporciona avaliar habilidades que vão desde vocabulário à coordenação motora do estudante. Trabalho com plataformas digitais, entendo sua importância para a educação hoje. No entanto, não entendo como algo positivo, do ponto de vista pedagógico. São visões conflitantes, a meu ver, sobre posicionamento, estrutura ou mesmo avaliação”, ele complementa.

Para o educador, não há como barrar o senso comum de escolas e responsáveis de ler e entender os dados do Enem como um tipo de ranking. 

“O que precisa mudar é a nossa mentalidade, e não a prova. O Enem não é a única métrica possível para se provar na escola e nem a escola deveria se basear apenas em dados como esse. Para mostrar o seu trabalho de formação e informação de seus alunos é preciso levar em conta outros aspectos”.

Juliana Damasceno

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