4Lab Co

Mulherão é o que não falta no Brasil

Entrevistamos a autora do livro “50 Brasileiras incríveis para conhecer antes de crescer”, Débora Thomé

Até os pequenos Francisco, de 10 anos, e Rosa, de 7, já sabem. “Meus filhos dizem que eu gosto de duas coisas: livro e mulher”, conta a mãe, escritora e ativista da causa feminista Débora Thomé. O convite da editora Galera Record para produzir uma obra sobre brasileiras que realizaram grandes feitos, portanto, foi direcionado à pessoa certa. Depois de muita pesquisa e de uma difícil seleção (mais de 100 nomes ficaram de fora!), nasceu “50 brasileiras incríveis para conhecer antes de crescer”, publicação que atraiu o interesse não só das crianças, mas também dos adultos. A própria autora se surpreendeu com as histórias de vida de várias personagens.

“É impressionante que a gente não conheça mais sobre essas mulheres na escola. Fico feliz de hoje, aos 41 anos, ter essa possibilidade. Agora, as meninas já sabem que têm outros exemplos, que a História não foi feita só por homens”, destaca Débora. Para ela, o processo de construção do livro também trouxe novos conhecimentos.

A história não foi feita só por homens

Por isso, é complexo eleger os perfis que mais a surpreenderam: “Sobre De Nise da Silveira, por exemplo, eu descobri que conhecia muito pouco. Vi o quanto ela foi fantástica e contribuiu para a mudança dos estudos da psiquiatria. Outra sobre quem não resisto falar é Elis Regina. Sempre gostei dela, e passar por suas dores foi um presente. Já a trajetória da Ada Rogato, pilota, faz muito sucesso. Até hoje é raro vermos mulheres pilotando… Foi incrível saber que ela atravessou a Amazônia sem a ajuda de instrumentos, há décadas. E não posso deixar de citar Bertha Lutz, a ‘mãe’ do feminismo no Brasil. Ela começou lá nos anos 20 a batalha pelo voto feminino”.

Quantas descobertas! É esse universo novo que se abre aos olhos e na vida dos leitores que ela considera o grande barato da literatura: “Quanto mais você lê, mais do mundo você conhece. A leitura vai gerando curiosidade. Nem sempre precisamos viajar muito para conhecer outras pessoas ou lugares. Como se comporta um menino na Índia? Dá para descobrir lendo um livro”.

Conhecimento que liberta

Segundo a autora, ler é também uma saída para combater a desigualdade entre mulheres e homens, luta que ela trava em seu dia a dia. “Gosto de Madame de Condorcet. Já no século XVIII, ela dizia que ‘o conhecimento dá liberdade à mulher’ porque ele proporciona a chance e a capacidade de entender o papel que ela pode exercer na sociedade. E a literatura é o instrumento para isso”, reforça Débora.

Na época do lançamento de “50 brasileiras incríveis para conhecer antes de crescer”, Débora estava morando em Nova Iorque. Ao divulgar sua obra no exterior, percebeu que a questão da posição da mulher no mundo tem muito a evoluir, não só aqui, mas também em outras nações. “Estamos bem atrasados nesse assunto, mas quase todos os países ainda engatinham na questão da igualdade de gênero. O agravante é que o Brasil é um dos piores na questão da representação política, o que evidencia que estamos muito mal”.

O mundo é dominado por homens

“No Brasil, as mulheres ainda são vistas por seu papel na maternidade, dentro do espaço doméstico”, critica Débora, que cita sua própria história para mostrar que é possível reverter essa realidade: “Construí minha vida com dois filhos. Os homens nunca tiveram de escolher se seriam pais ou estariam na vida pública. A mulher tem o direito de ser mãe e ter uma vida pública. Para isso, precisa ter um companheiro que divida as tarefas domésticas e a criação das crianças”.

O ativismo de Débora virou até bloco de carnaval. Depois de ver, ao lado de uma amiga de infância, uma brincadeira no Facebook de homens dizendo “eu não mereço mulher rodada’’, elas fundaram, olhem só, o bloco “Mulheres rodadas’’.

“Saímos no carnaval de 2015 e juntamos mais de duas mil pessoas na rua. Viramos notícia em todo o mundo como o primeiro bloco feminista do Rio de Janeiro. Essa sempre foi uma festa machista, com a mulher sendo vista como objeto. Hoje, fazemos oficinas com mais de 100 mulheres, tocamos músicas de compositoras, chamamos atenção para o direito de estar na rua sem ser importunada, sem ser ameaçada. O bloco virou um movimento social com música. Mandamos mensagens por meio da arte”, frisa.

Garotas com dificuldades, meninos nadando de braçada

Aquele velho ditado de que “a união faz a força” parece valer ainda mais nessa luta por uma sociedade igualitária. “Quando tive filhos, fiquei impressionada com as redes que as mulheres formam para se ajudar. Uma recorre à outra em busca de informação. Pensei até em escrever um livro sobre isso. Mas somos muito boas em ouvir e muito ruins na hora de agir. Você sabe que sua amiga vive um relacionamento abusivo? Ciúme é um problema sério, ainda mais na adolescência! Faça uma rede e ajude essa amiga. Aja! As meninas estão com notas ruins em matemática no colégio? Que tal se juntar e ir à coordenação para ver como fazer aula de reforço e melhorar? Não saber matemática é ruim para o futuro, viu? Porque, enquanto as garotas estão com dificuldade, os meninos estão nadando de braçada. Buscamos equalizar os direitos”, afirma.

“Queremos igualdade em relação aos homens, não superioridade a eles. O machismo oprime as mulheres, o feminismo não oprime ninguém.”

Leitora voraz, Débora conta que devora de um a dois livros por semana. “Levo isso a sério”, brinca. Com uma biblioteca de mais de 2 mil livros, ela diz ser incapaz de apontar uma obra inesquecível, mas cita autores por quem tem uma devoção.

“Eu me apaixonei por livros muito cedo. Minha mãe me levava a bienais, eu trocava exemplares com as amigas, fazia anotações. Ruth Rocha e Pedro Bandeira foram grandes companheiros. Hoje, sou uma apaixonada por literatura latino-americana. Adoro o colombiano Gabriel García Márquez e o peruano Mario Vargas Llosa, os dois já ganharam o prêmio Nobel de literatura”, destaca ela, ao lembrar da importância de se fazer um esforço para praticar o hábito da leitura.

Eles devem ter intimidade com os livros

“As pessoas acham que ler é fácil. Não! Exige treinamento. Mas é um treinamento que dará a você a melhor companhia de toda a sua vida. Com meu filho e minha filha, vejo o quanto é complicado. Não é um ato espontâneo. Você precisa sentar, ficar parado olhando ao menos 20 minutos para aquelas letras. E ninguém fica parado hoje. Mas é preciso treinar. Deixa a criança ficar folheando, dá um gibi ou aquele exemplar que puder dar. Pensamos muito que os pequenos precisam ler Monteiro Lobato ou algo mais sofisticado. Mas eles devem é ter intimidade com os livros. Uma vez que essa intimidade é estabelecida, aí abrimos um diálogo com a tecnologia. A obra fala sobre a Espanha? Vamos procurar um vídeo sobre esse país, produzir algo para o YouTube com a criança falando sobre o que leu. E o pai e a mãe têm de ler na frente dos filhos, é claro”.

Mas… Voltando às mulheres… Há tantas outras com belas histórias para serem contadas! Se mais de 100 ficaram de fora da obra, dá para esperar um “50 brasileiras incríveis para conhecer antes de crescer” número 2? “A gente pensa nisso, sim. É um projeto, mas ainda sem uma previsão certa”, avisa Débora.

Veja a entrevista com Débora Thomé, na Íntegra

0 comentários