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JOCA, o jornal que tem crianças e adolescentes como protagonistas

Foto: Divulgação

Filha de mãe francesa e pai alemão, Stéphanie Habrich cresceu no Brasil, onde desde menina descobriu na leitura de jornais e revistas o prazer de conhecer um universo. Ela até tentou viver no mundo dos números, ao qual se dedicou por anos nos Estados Unidos, mas foi para as palavras – que aprendeu a amar desde a infância – que ela voltou.

De volta à terra que escolheu chamar de sua, Stéphanie fundou a Editora Magia de Ler e, logo em seguida, em 2011, o JOCA, primeiro jornal brasileiro dedicado a crianças e adolescentes. Mais que um negócio promissor, a publicação quer dar oportunidade para que esses cidadãos em construção sejam parte do futuro que querem para si.

Sobre isso e muito mais, você confere a seguir, no bate-papo que o 4Lab teve com a fundadora e sócia-diretora da Magia de Ler, organização que produz o jornal Joca.


4Lab: Como surgiu o JOCA?

Stéphanie Habrich (SH): “Acho que preciso começar falando um pouco sobre mim… Eu sou franco-alemã, com mãe francesa e pai alemão. Nasci na Alemanha. Quando nós viemos para o Brasil, eu tinha 8 anos, meus pais assinavam publicações de revistas e jornais europeus. Eles fizeram isso para mantermos a língua materna. Daí eu fui guardando todo esse material. A vida seguiu, eu fui trabalhar em administração de empresas. Trabalhei 3 anos em banco em Nova York, no mercado financeiro. Surgiu a vontade de voltar para o Brasil e fui, então, fazer um estudo de mercado. Eu montei uma editora, que começou com duas revistas, a Toca, para crianças de 1 a 4 anos, e a Peteca, voltada a crianças de 5 a 8 anos. O JOCA eu criei 3 anos depois. Foi muito por como eu cresci e pelo que queria trazer de fora, que não existia. Não existiam revistas e jornais específicos para crianças aqui.”

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4Lab: Valia a pena apostar em conteúdo para crianças e adolescentes?

SH: “Jornal para criança já existia há mais de 30 anos na Europa, nos Estados Unidos, na Ásia. E não eram publicações únicas, mas várias. Então, eu fiz o estudo com o pessoal da consultoria que contratei e constatamos que de fato não existia aqui algo semelhante. Consultamos pais, responsáveis, professores, psicólogos, e que confirmaram haver necessidade de trazer mais conteúdo de boa qualidade para crianças e jovens.”

4Lab: Qual é o objetivo do projeto?

SH: “O JOCA é o primeiro jornal pra crianças e jovens do Brasil. Ele traz as notícias de forma contextualizada para a criança poder entender. Mesmo quando têm palavras difíceis, elas são explicadas dentro de um box. O intuito é que ela consiga entender desde o início. Por exemplo, se a gente tá falando da Guerra na Síria, a gente explica porque ela começou. No caso do [Donald] Trump e Kim Jong Un: por que eles estão brigando? O que aconteceu? Por que estão há 70 anos sem se falar? O que eles querem? A gente vai explicando para a criança entender e aprender. Por isso, inclusive, muitos adultos gostam do JOCA, porque é um resumo da quinzena de forma contextualizada.”

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4Lab: A linguagem usada foge da infantilização?

SH: “Não é de forma infantilizada, ao contrário, é um respeito pela criança, que ela merece, é falar ‘ela faz parte da sociedade’. A criança, mesmo com 10, 12 anos, é parte da sociedade, e ela é o líder do futuro. Daí a importância enorme que ela sinta com o jornal JOCA, pertencimento. Ela pertente à sociedade, é ouvida e tem um canal de comunicação específico.”

4Lab: Como funciona a integração com o público?

SH: “A gente recebe semanalmente editores mirins que queiram ter contato com a gente. Eles passam duas horas ou mais na redação. Entendem como se faz o jornal, desde a pauta, o jornalista, a revisão. E eles dão seus pitacos. Nesta semana [a 3ª de junho], uma redatora mirim foi mudando um título, ‘vamos usar outra palavra, porque isso não vão entender’, comentando ‘que matéria legal’. A gente também tem nossos correspondentes internacionais: crianças que estão em vários países dão seus relatos.”

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4Lab: Quais assuntos provocam mais as crianças?

SH: “É incrível a sensibilidade das crianças e o protagonismo delas. Quando nós estávamos falando sobre a crise dos refugiados, por exemplo, da Guerra na Síria, muitas crianças escreveram cartas pra gente, contando que fizeram brechó, levantaram dinheiro e entregaram a refugiados. Outras ações por meio de cartas, onde pediram a tradução de um livro sobre o diário de uma menina de 13 anos na Guerra da Síria. Entrevistamos uma criança que estava se recuperando de um câncer e recebeu muitas cartas dos nossos leitores. As crianças são muito sensíveis e atuantes.”

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4Lab: Quem trabalha no JOCA?

SH: “Nós temos uma equipe de jornalistas, pedagogos, parte comercial, de marketing… É uma empresa. Estão todos convidados a vir e conhecer a redação, que está sempre aberta. Recebemos muitas visitas do Brasil todo. Queremos as crianças participando com a gente.”

4Lab: Qual é a abrangência do JOCA?

SH: “A gente tem a versão impressa, que é quinzenal, e a online, diária. A versão impressa é a preferida, tem cerca de 18 mil assinantes. Mas posso dizer que a gente impacta 5, 6 vezes mais crianças, porque esse jornal roda, por exemplo, nas salas de aula em escolas onde a presença dele é obrigatória. Tem escolas públicas usando 30 exemplares para alcançar seus mil e quinhentos alunos, passando para mais uma, até para uma terceira escola. E esse jornal fica intacto, incrível. Não tem um rabisco. É um respeito pela sabedoria.”

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4Lab: Tem conteúdo específico para pais e educadores?

SH: “Como não existia isso no Brasil, você precisava formar e dar suporte para os pais e professores. Nós temos uma newsletter quinzenal para professores, por onde enviamos link para mais de 70 exercícios, que podem ser feitos para trabalhar com cada edição do JOCA. Exercícios multidisciplinares, que têm a ver com pensamento crítico. Fazemos troca de práticas entre professores de todos o Brasil. Para os pais, enviamos um outro conteúdo, sobre como conversar com as crianças e adolescentes sobre os assuntos tratados.”

4Lab: Como as tecnologias são integradas ao JOCA?

SH: “Da nossa experiência, o impresso é muito forte, pois as crianças adoram o JOCA, ao ponto de dormir com ele embaixo do travesseiro. Para as crianças do ensino fundamental 1 e início do 2, o impresso é muito importante, por conta da leitura delas, pelo vínculo material de pertencimento. Também para discernir entre o que é falso e verdadeiro, tem todo esse repertório. Já para os maiores, a partir da metade do fundamental 2 até o ensino médio, nós estamos desenvolvendo um material novo chamado JOCA X, já para volta às aulas de julho. Esse, sim, não vai ter edição impressa.”

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4Lab: Como o JOCA vê a proposta “Escola sem Partido”?

SH: “O jornal tá ali pra informar. A gente não traz opinião, nada enviesado. O importante é trazer o máximo de informações e deixar que a criança tome sua posição, consciente do porquê tê-la. Saber debater, não repetir opiniões que nem entende. Nosso desejo é dar oportunidade para todas as crianças do Brasil. O JOCA é um produto que está a serviço das crianças.”

Marcella Moreira

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