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Geração Alpha: um novo modos operandi de ensinar

As crianças que chegam ao Ensino Fundamental nasceram numa sociedade 100% conectada e agora se mostram um verdadeiro desafio para as escolas: como lidar com quem não conhece o mundo sem a tecnologia?

Houve um tempo – e nem faz tanto tempo assim – em que as pessoas que se aproximavam de um computador o faziam de forma cerimoniosa, muitas vezes abismada com as possibilidades que aquela máquina oferecia. Essas pessoas continuam ficando espantadas a cada vez que veem novidades como celulares com câmeras de altíssima definição; alguns recusam-se a abandonar velhos hábitos como os livros de papel e os discos de vinil, hoje novamente na moda. Mas há um grupo de pessoas para quem a tecnologia não é uma novidade, e sim, algo que faz parte da vida cotidiana, desde seus primeiros dias: as crianças nascidas nesta década, aquelas que chegaram ao mundo depois do touch screen, são chamadas de Geração Alpha.

Os especialistas que apreciam rótulos já criaram um nome para essa turminha: eles são a geração alpha, que vem suceder a geração X (os nascidos nos anos 70/80, aqueles que ficavam de queixo caído diante de um computador), a Y (nascidos dos anos 90, já sob o signo do computador, mas que ainda tiveram que encarar a internet discada) e a Z (nascidos na primeira década do século 21, com internet à vontade em casa, mas não na rua). A geração alpha já vem ao mundo online, conectada em todas as horas e lugares e a um toque de qualquer informação. E isso, obviamente, representa uma série de desafios para educadores, até porque as crianças dessa idade já estão chegando ao Ensino Fundamental.

Por exemplo: como adequar o gosto dessas crianças por celulares e tablets com o currículo escolar? A eletrônica precisa mesmo invadir a sala de aula? As crianças acostumadas ao hiper-estímulo, bombardeadas por todos os lados por animações, cores e barulhos, vão conseguir se concentrar em sala de aula, diante de uma professora que escreva na lousa?

“Esse risco existe, sim. A criança pode não entender a velocidade diferente da escola, já que acessando a internet pelo seu celular poderia ter acesso a muitas informações que resultariam em um processo de aprendizagem mais rápido”, explica a psicóloga Mônica Setti, especializada em arteterapia. “Diante de qualquer desafio, temos sempre que considerar e observar o contexto. E o contexto que temos é cada vez mais digital, cada vez mais cedo as crianças estão diante das telas”, completa Priscila Gonsales, diretora-executiva do Instituto Educadigital.

Em 2016, a pesquisa Kids Online, realizada por encomenda do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), apontou que nada menos de 82% das crianças de 9 a 17 anos acessam regularmente a internet. O telefone celular é a ferramenta principal, usada por nada menos que 91% – tablets, videogames, smartTVs e computadores portáteis e de mesa aparecem com bem menos frequência de uso.

“Uma aula conectada com proposta de aprendizagem é muito mais eficaz que uma exposição analógica e passiva, mas para isso é preciso muita empatia na relação professor-aluno, aliada ao entendimento do contexto em que a criança está e à oferta de um processo de aprendizagem ativa ao estudante”, completa Priscila.

Isso passa por formas de despertar – e suprir – a curiosidade de crianças acostumadas o tempo todo a descobrir coisas novas. “As crianças por si só, desde seu nascimento, têm a necessidade e a característica de absorver. A curiosidade é necessária para q elas absorvam o que está a sua volta e aprendam, mas isso precisa ser guiado, porque a criança, por conta própria, não sabe parar”, explica Mônica.

Controles e cuidados

O livre acesso à internet, nem sempre monitorado por pais e responsáveis, tem trazido consequências diretas às crianças. A pesquisa Kids Online mostra que 62% dos usuários regulares de internet têm consciência de ter visto propaganda durante o uso das redes sociais – índice que sobe a 69% no caso dos sites de vídeos, onde os anúncios são mais escancarados. Como consequência disso, 52% já pesquisaram sobre marcas em sites de busca, e 43% chegaram a pedir algum produto aos pais depois dessas pesquisas e das propagandas.

As crianças acreditam, pela própria percepção, que estão agindo sob controle. A pesquisa aponta que 48% acham que seus pais têm muito conhecimento de suas atividades conectadas, e outros 41% pensam que os responsáveis sabem “mais ou menos” o que elas fazem. No controle das atividades, uma possível contradição: 61% têm permissão para postar fotos nas redes sociais a qualquer hora, inclusive quando estão navegando sozinhas, e 60% dizem que podem enviar mensagens instantâneas, mas 61%, ao mesmo tempo, não têm autorização para dar informações pessoais e outros “em nenhuma circunstância”.

Ou seja, nota-se pelos números, um excesso de confiança dos pais nos filhos. “A criança não tem filtros, nem sempre sabe a hora de parar. É preciso ter cuidado com isso, vigiar, o que nem sempre os pais e professores podem fazer”, alerta a psicóloga Mônica Setti. É por isso, ela acredita, que seja difícil no curto prazo a digitalização completa de uma sala de aula. “Muitas vezes as escolas não comportam a demanda, seja por falta de equipamentos ou de pessoal, porque não é possível acompanhar todo mundo para ver o que estão fazendo com os eletrônicos”, diz.

Os avanços possíveis

É inegável, no entanto, que a demanda por inovação existe. As novas gerações que estão chegando às salas de aula são mais curiosas e menos concentradas. Não têm muita noção de hierarquia e poder, porque os pais oriundos das gerações X e Y muitas vezes têm lá seus traumas com ordem e comando e tentam ser mais “democráticos” com os filhos – que enxergam o mundo de forma muito mais horizontal, sem limites. Na sala de aula, isso muitas vezes pode terminar em problemas com professores mais, digamos, tradicionalistas.

“Não há fórmulas ou receitas prontas. É preciso experimentar possibilidades, errar, consertar, tentar novamente. Professores precisam ter empatia consigo mesmos e com seus alunos, assim como os estudantes para com os educadores”, explica Priscila Gonsales, que é especialista na criação de projetos educacionais inovadores – o que não quer dizer necessariamente tecnologia.

“Precisamos cada vez mais falar em valores humanos e em como esses valores estão sendo potencializados ou não pelas tecnologias digitais. Testar, vivenciar as tecnologias é importante, mas refletir sobre o uso delas é igualmente fundamental”, defende.

Ela se diz favorável ao uso dos celulares em sala de aula, desde que isso aconteça com inteligência e planejamento. “O celular não é só uma ferramenta, mas o símbolo de uma cultura contemporânea para a qual a escola precisa estar atenta. Todo mundo tem seu celular. Instigar possibilidades, experimentações e produções com celular faz com que os estudantes percebam que eles podem ser autores e não apenas consumidores de informação.” Para ela, mais do que proibir, é preciso conscientizar crianças e adolescentes. “Tem momentos que não se pode usar o celular e geralmente todo mundo respeita, como no cinema, e tem momentos em que ele é bem-vindo. Em sala de aula, professores e alunos precisam criar esses combinados e ter espaço para conversas sobre os usos, as possibilidades, as tensões e equilíbrios necessários.”

Mas e os professores, estarão preparados para uma mudança radical na forma de trabalhar? Muitas vezes, os profissionais de ensino são vistos como conservadores, avessos a mudanças em comportamentos que “sempre deram certo”, costumam dizer. Para Priscila, é preciso fugir de estereótipos. “As pesquisas comprovam uma certa insegurança dos educadores e isso tem a ver com formação, mas também com autoconhecimento, já que a formação de docentes quase nunca trabalha com esse tema, e com gestões hierárquicas, ou seja, que impõem regras sem debates. Mesmo que a coisa sempre tenha dado certo, por que não arriscar de outro modo? Acredito que incentivar uma rede de trocas entre docentes é o melhor caminho para melhorar isso”, defende a educadora.

Seja qual for o método escolhido e a quantidade de digitalização, é preciso entender as individualidades de cada criança e tentar oferecer um ensino adequado as potencialidades e necessidades de cada um. “Às vezes, há cobranças em excesso para crianças pequenas que não conseguem dar conta de tudo. Por isso, é preciso se adequar ao temperamento delas para respeitar a individualidade psíquica, suas singularidades, e oferecer o melhor atendimento possível”, conclui Mônica Setti.

Mas como, afinal, lidar com esta flexibilidade? Como focar em outras coisas, se necessário, sem traumas ou dependências? Este é um desafio diário que os educadores enfrentam a partir desta nova geração que nasce cada vez conectada.

A diretora de ensino da FourC Bilingual Academy, Juliana Pereira de Albuquerque Storniolo, reconhece que seria uma hipocrisia tirar a tecnologia da vida dos pequenos, mas também é preciso saber o que fazer com ela. E, acima de tudo, como fazer. “Quando se fala em mundo tecnológico, não há mais como fugir, o mercado já se pauta por conta disso. O que me preocupa, de fato, é a escola construir seus muros frente ao mundo real. Isso pode ter como consequências uma quebra no desenvolvimento sócio e emocional dessas crianças em seu primeiro fazer, em seu viver o mundo”, explica.

Ela conta que, em uma palestra, ouviu uma frase que a marcou muito, quando o assunto é o modelo escolar em transformação. “No palco, o convidado disse que somos hoje uma escola do século 19, com professores do século 20 e uma metodologia de ensino que exige o século 21. E, de fato, ainda temos uma ideia de escola com um modelo que preparava pessoas para a produção em massa, ainda estamos na Revolução Industrial”, completa.

Entretanto, a grande missão para as próximas gerações, segundo ela, é justamente encontrar o equilíbrio da exposição, nestes tempos atuais. “De fato, a gente não tem como negar a importância disso em nossas vidas hoje. Mas a gente precisa continuar valorizando, simultaneamente, as habilidades sociais, emocionais, motoras e as vivências destas crianças, para além dos ambientes digitais. Sabemos que é um desafio que a escola enfrenta. E não é um equívoco pensar em tecnologia na primeira infância, apenas penso que o excesso pode ser um problema. Existem outras relações importantes que precisam ser privilegiadas: a relação com os outros e consigo mesmo precisa de atenção, e não depende da internet”.

Juliana também alerta para o tempo certo das coisas, que precisam ser respeitados. “Não é preciso ter pressa na alfabetização da criança, por exemplo. Cada um tem sua energia, seu momento. E para que as bases sejam bem construídas, constituídas, é importante a gente pensar em educar sem a dependência das redes, avaliar o quanto o uso delas em casa e nos meios sociais podem influenciar esses comportamentos. Estimular a pensar, questionar, explorar é bastante precioso e nem precisa de nenhuma conexão”, conclui.

Juliana Damasceno

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