4Lab Co
George Stein

O que podemos aplicar do SXSW EDU na educação brasileira, com George Stein

O professor e consultor educacional destaca os principais conceitos e práticas trazidos do SXSW Edu 2019 que podem ser aplicados à educação brasileira.

O professor George Stein participou do SXSW 2019 como mentor na programação oficial e traz para o 4LAB a sua experiência consolidada. A proposta do evento é promover a inovação na educação por meio do encontro de diversos profissionais da área ao longo de quatro dias. O Brasil foi o terceiro país com o maior número de participantes e George Stein levanta importantes reflexões sobre a aplicação dos conceitos vistos ao longo evento, em entrevista exclusiva.

O SXSW EDU se diferencia de outros eventos por trazer vivências reais da sala de aula e escola. Quais os assuntos mais pautados ao longo do evento?

George Stein: Em termos gerais, os assuntos ligados a tecnologia, associados às tecnologias de informação e comunicação, aparecem com mais frequência. Desde robótica e Inteligência artificial até plataformas integradas de ensino para escolas.

Porém, a tecnologia era uma pauta muitas vezes incorporados a outros aspectos fundamentais que também formaram a pauta geral do evento: Personalização de Ensino, Educação Integral, Impacto Social e Relacionamento com a Comunidade (aqui incluindo tanto aspectos individuais e locais como Inclusão e Diversidade, quanto questões globais, como Mudanças Climáticas, Imigração e Escassez de Água). Algumas sessões trouxeram inclusive como lidar com a demanda por habilidades tecnológicas como programação e lógica utilizando-se de recursos simples, não digitais. Incluindo formação de professores para lidar com essas demandas de transformação nos sistemas escolares.

Há uma disparidade na educação no Brasil. Enquanto algumas escolas estão discutindo sobre inteligência artificial, outras estão com dificuldade na atualização e formação de docentes. Como o evento trabalha com essas diferentes “dores”?

George Stein: A formação de docentes é um fator crítico em qualquer situação escolar. Mesmo aquelas que já estão em uma situação tecnológica mais avançada passam pelo desafio de como incorporar as inovações desejadas na prática docente, de maneira integrada ao currículo escolar. Pude notar, nas conversas e eventos que estive, que duas variáveis são essenciais, como as escolas lidam com o processo de mudança e formação de maneira estratégia, coerente com os desafios do dia-a-dias, e qual tipo de suporte é dado na formação de professores.

É importante salientar que quando se demanda novas atitudes e práticas dos professores, é necessário pensar que se deve fazer isso baseado nos desafios reais da prática docente e considerar que se irá fazer isso enquanto se continua com as atividades usuais do dia-a-dia.

Em sua participação, destaca-se a formação docente baseada em personalidade. Como funciona essa nova vertente de formação?

George Stein: Essa vertente está baseada em um conceito largamente conhecido, mas nem tanto utilizado na maioria das escolas, que é a diferenciação de ensino. É fato que em uma classe de 20 ou mais alunos, existem diferenças de interesses, habilidades e perfis dentre os alunos. Essas diferenças fazem com que não se possa mais pensar em uma aula que seja padronizada para todos os alunos. Conceitos como personalização e diferenciação de ensino são fundamentais para que se consiga prover aprendizagem para todos os alunos.

Quando se fala em formação docente, o professor se torna aluno: portanto, os conceitos de diferenciação e personalização de ensino devem ser aplicados ao professor. E mais: deve-se reconhecer que uma mesma abordagem pedagógica será utilizada de maneira diferente por professores com personalidades diferentes.

Essa vertente de formação de professores integra conceitos de diferenciação de ensino e de personalidade para que o professor possa se tornar mais consciente das suas particularidades, bem como conhecer algumas práticas didáticas adequadas às mesmas e assumir seu protagonismo em qualquer nova atitude ou prática pedagógica que venha desenvolver.

O ensino híbrido foi um dos assuntos pautados no SXSWEDU. Como funciona e qual é a aplicação prática?

George Stein: O ensino híbrido é uma modalidade de ensino que combina práticas presenciais (dentro de espaços institucionais físicos, com momentos e grupos definidos) com práticas de ensino e estudo virtuais, em meios digitais, que possibilita o estudante definir quando e como irá se dedicar para cumprir as tarefas.

A aplicação prática se dá em qualquer situação onde seja possível atingir objetivos de aprendizagem pré-definidos, de maneira que combine a facilidade e flexibilidade de uso de recursos digitais para pesquisa e/ou acesso à informação com atividades presenciais de exposição dialogada, instrução, interação, reflexão coletiva e consolidação. Desse modo, a interação entre estudantes e professores torna-se fundamental para atingir os objetivos de aprendizagem.

Como aplicar no dia-a-dia as tendências para a educação discutidas o longo do evento?

George Stein: Não existe fórmula mágica e nenhuma solução ou tendência pode ser aplicada de maneira efetiva em escolas se não for conhecida a realidade e os desafios. A implementação de inovações pedagógicas (sejam tecnológicas/digitais ou não) deve estar alinhada com os desafios atuais e futuros, no curto, médio e longo prazo das escolas.

A primeira reflexão deve ser baseada no entendimento do Projeto Político Pedagógico da escola e em um diagnóstico da situação atual: deve-se verificar se e como a escola está conseguindo efetivar na prática o que declarou no PPP e quais são os desafios pedagógicos e de gestão para que isso aconteça. Por exemplo, uma escola com problemas na liderança e na coordenação pedagógica, deve prioritariamente endereçar esses desafios antes de investir dinheiro e tempo da equipe de professores para implementar uma nova prática só porque as escolas concorrentes fizeram o mesmo.

Uma vez que se tenha clareza das ações prioritárias, a escola pode decidir onde, quando e como vai colocar esforços para incorporar tendências que estejam alinhadas aos desafios reais da escola.

Como considerar a voz do aluno dentro do contexto apresentado no evento?

George Stein: O evento trouxe, em diversas sessões e conversas, a importância de se conhecer o aluno para que se tenha um ensino mais personalizado. Isso não obrigatoriamente significa ter uma aula para cada aluno, mas sim considerar e conectar com a realidade dos alunos. Além de considerar habilidades, sonhos e dificuldades com os objetivos de aprendizagem previstos.

Existem várias práticas e abordagens específicas para se fazer isso de maneira coerente e consistente durante um curso, mas práticas simples e efetivas podem ser aplicadas. As mais simples e usualmente aplicadas estão ligadas a escuta e diálogo sobre a realidade do aluno, conectada ao objetivo de aprendizagem.

Porém um ponto de atenção: se existe a pergunta para ouvir a voz do aluno, deve existir a escuta, o diálogo e alguma ação específica que incorpore a voz do aluno na atividade.

Algumas possibilidades que podem ser facilmente incorporadas (não exaustivas):

a. Pode se perguntar para o aluno o que ele já sabe e o que gostaria de saber sobre o tema que será tratado e direcionar as aulas considerando as respostas e os objetivos a serem atingidos.
b. Pode se oferecer escolhas de tipos de atividades para que os alunos possam se manifestar e realizar diferentes tarefas.
c. Pode se lançar atividades de pesquisa e conexão da realidade do aluno com o tema a ser estudado.
d. Pode se abrir parte das atividades para que os alunos tragam temas que gostariam de aprender para aplicar na prática.

Maria Gabriela Zanotti

Maria Gabriela Zanotti

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