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saúde emocional

Os filhos, a pandemia e os impactos de longo prazo

Como a saúde emocional das crianças e adolescentes vem sendo afetada e o que você pode fazer para ajudar

Observar e escutar são as principais ações que os pais podem ter para entender e aplacar o impacto na saúde emocional causado nos filhos pelo chamado “novo normal” – que, a esta altura, já não é mais novo e tampouco se estabeleceu como normal. As consequências deste mais de um ano de isolamento social, restrições de atividades de interação e transformação parcial da casa em escola ainda começam a ser analisados por estudos acadêmicos, mas dentro de casa há ações que podem ajudar as crianças neste processo de adaptação que parece interminável.

Para começar, vamos definir o que é saúde emocional. Quem explica é a psicóloga Fernanda Andrade de Freitas Salgado. “A criança emocionalmente saudável é aquela que consegue lidar com as reações que os estímulos externos desencadeiam, por exemplo, situações que causam frustração, ansiedade, tristeza, raiva, medo. Lidar com essas emoções que podem ser emergidas em distintas situações no nosso dia-a-dia, de modo equilibrado sem grandes prejuízos para o seu funcionamento e suas relações”, diz a profissional, que é também professora do curso de Psicologia no Centro Universitário Bossa Senhora do Patrocínio (Ceunsp), em Itu (SP).

O problema é que a pandemia mexeu diretamente com tudo isso. “Mudou drasticamente a rotina das crianças, das famílias de modo geral, além de a grande maioria ter ficado privada do convívio com os amigos, escola, familiares, atividades esportivas e lazer. Tiveram que se adaptar a um novo modo de estudar, além de lidar com sentimentos como medo, insegurança e eventualmente o luto”, diz a profissional.

Esse luto, aliás, é um ponto importante. Num período em que as mortes se tornam corriqueiras (eram mais de 480 mil no dia do fechamento deste texto), as crianças também são afetadas. Muitas das vítimas, afinal, eram também pais, tios, avós… Segundo estudo feito pela Universidade Federal de Minas Gerais, dois terços das famílias brasileiras tiveram pelo menos uma pessoa que morreu da nova doença.

“Além da ruptura da rotina, muitas crianças e adolescentes perderam parentes próximos, amigos ou alguém conhecido. A perda natural já é um processo delicado, mas quando o luto ocorre em massa, as consequências ainda são piores”, afirma a psicóloga Erica Sorrilha Santos Rosa, também professora do Ensino Fundamental na rede municipal de Sorocaba (SP) e mãe de um menino de 9 anos.

Parece o caos? Sim, e faz sentido

Não existe pai ou mãe que, trabalhando em casa e tendo de dividir o tempo e o espaço com a educação e o lazer dos filhos, não tenha pensado que sua vida estava “um caos”. E a hipérbole é válida: artigo das psicólogas Maria Beatriz Martins Linhares e Sônia Regina Fiorim Enumo relaciona os impactos da pandemia na rotina das famílias à Teoria do Caos, que estuda o relacionamento dos diferentes ecossistemas na natureza.

Especialistas são unânimes em apontar que a família é a primeira unidade de convívio social de qualquer pessoa. A partir dela, as crianças estabelecem contato em outros núcleos, ou sistemas, como as escolas, os clubes onde realizam atividades extracurriculares e o próprio círculo familiar expandido – tios, avós etc, cujo contato em muitos casos se tornou mais restrito.

“Devido ao distanciamento social, algumas crianças não estão frequentando a escola, que é um segundo microssistema essencial ao desenvolvimento e aprendizagem. Além das grandes perdas do processo de aprendizagem formal, as crianças estão sendo privadas da necessária socialização com os pares, em que ocorrem aprendizados significativos para o desenvolvimento humano, tais como: experiências lúdicas compartilhadas, que implica em interações proximais face a face; cooperação; convivência com as diferenças; compartilhamento de decisões; enfrentamento de desafios; negociação de conflitos; adiamento de gratificações; espera da sua vez; exercício controle de impulsos; entre outras habilidades”, diz o artigo, que pode ser lido na íntegra aqui. Ou seja, se você às vezes se sente em meio a uma sensação de caos, saiba que não está só.

Mas o que fazer, então?

Voltamos ao nosso primeiro parágrafo: escutar e observar o comportamento, com as características distintas de cada faixa etária (e elas mudam sensivelmente o tempo todo), é o começo do processo para entender se a saúde emocional da criança ou adolescente está em ordem ou apresenta algum tipo de desvio.

“Às vezes a criança reage, sem saber por quê. Sente um mal-estar, grita, ou então apresenta outros sintomas, como desânimo, falta de apetite, alterações no sono, querer dormir com os pais com mais frequência e intensidade. É preciso estar atento aos sinais e então procurar de comunicar com a criança, diretamente, sem tentar adivinhar o que acontece”, aponta a psicóloga Thais Helena Gonçalves Paz Costa. Ela lembra que essa tarefa nem é exatamente uma novidade. “Os pais reconhecem as emoções desde o início da vida do bebê: o choro da fome, do sono, da cólica. É fundamental que isso continue, que eles possam entender o que as crianças pensam. Não dá para esperar que a criança faça isso sozinha.”

Para crianças mais novas, com dificuldade maior de verbalizar e se expressar, ela sugere que os pais tentem brincadeiras com desenhos que remetam a expressões e sentimentos, que podem ser pregados na geladeira com ímãs. “Como você está hoje? Alegre? Triste? Como foi quando a gente saiu para andar de carro? Ficou feliz? Ficou brava com algo que o coleguinha ou irmão disse?”, sugere a terapeuta. Comparações com personagens de desenhos e filmes, com os sentimentos da animação “Divertida Mente”, também podem ajudar.

“O momento requer paciência, empatia, escuta incansável, e permitir algumas mudanças de hábitos, pois a forma do convívio social, do relacionamento impessoal, se modificou. Então devemos valorizar o momento com a família, motivar o diálogo, priorizar assuntos que permitam descontração e acolhimento”, completa Erica Sorrilha. “O diálogo é sempre a chave de todo relacionamento, e ele não precisa ser necessariamente verbal. Deve-se encontrar a forma melhor de se conectar com os integrantes da família, pela música, pintura ou outra forma que faça com que todos se sintam tranquilos e confortáveis, favorecendo um ambiente agradável e feliz.”

Autoconhecimento é a palavra. Para todos

Mas todos os especialistas consultados avisam: não basta querer cuidar da saúde emocional das crianças se você, adulto, não está 100% – o que, convenhamos, é até natural neste cenário de “novo normal” em que quase ninguém se sente “normal” – termo inclusive que os cientistas desprezam. Ainda mais nos tempos atuais, em que as fronteiras entre casa e trabalho se dissolveram para muitas pessoas.

“É importante que pais e cuidadores tenham consciência de suas próprias emoções. Infelizmente ainda somos culturalmente influenciados por velhos paradigmas que nos dizem que precisamos ser fortes e felizes o tempo todo, e não é assim. Neste sentido, trabalhar a educação emocional das crianças é antes de mais nada, que o adulto responsável tenha consciência de suas emoções e as aceite para que, desta forma, consiga acolher e ensinar as crianças a descrever e nomear o que sentem, por que sentem e o que podem fazer com o que sentem”, explica a professora Fernanda Salgado.

Ou seja: sem se conhecer, e cuidar de si, da sua própria saúde emocional, é impossível cuidar dos filhos. E isso parte de cada um: não existe autoconhecimento familiar sem o autoconhecimento individual. É por isso mesmo que a situação exige paciência. “Num momento mais difícil, de crise, é preciso compreender a causa para não entrar no caos, porque numa frequência de confusão nada se resolve. Às vezes é melhor esperar, ouvir e perceber o momento certo para apoiar, estimular ou mesmo sustentar um ‘não’ como resposta às demandas da criança”, explica Thais Costa.

Fácil? Nem um pouco, os especialistas admitem. Buscar ajuda externa de psicólogos e terapeutas é uma possibilidade importante para pais e filhos. E vale, para encerramos, guardar as dicas: calma, paciência, vontade de escutar e dialogar. “A escuta serve para compreensão do que está acontecendo, e não simplesmente uma dedução ou uma comparação com o próprio sentimento. Quem está vivendo aquilo é a criança, então é preciso perguntar, mas não para ouvir respostas prontas. E respeitar o tempo de cada um. É difícil estabelecer uma receita de bolo como agir. Não funciona com adultos, nem com crianças e adolescentes. É um cenário incômodo, que já acontece há mais de um ano e os impactos seguem”, acrescenta Thais. “É um bom momento para reflexão e para estar de fato, com corpo e mente, com as pessoas que amamos”, conclui Erica.

Juliana Damasceno

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