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Conectados: Quando estamos indo rápido demais e congelamos

A avalanche de informações que chega até nós, todo dia, a toda hora, sem que façamos nenhum movimento para isso.

A necessidade de estarmos permanentemente informados, ligados, conectados pode ser um sinal dos tempos, segundo o especialista em Comunicação Digital, Eduardo Vasques. Aliás, a temática tem sido frequente em suas aulas e palestras para estudantes e profissionais de diferentes especialidades.

Esse é um dos temas mais discutidos da atualidade – seja na educação, no trabalho, e até mesmo entre os profissionais que criam, aprimoram e estudam cada vez mais estas tecnologias. Mas, quantas vezes você mesmo pensou em discutir isso num bar, com os amigos? Houve tempo livre para isso?

“O contraponto interessante é que estas plataformas, em tese, oferecem o tão sonhado canal de retorno, permite a interatividade e participação. Mas, na prática, a avalanche de dados é tão gigantesca que está colocando as pessoas em estado de choque, deixando-as estáticas no que diz respeito à construção de pensamentos mais críticos. Como aquele seu amigo que almoça em menos de 10 minutos, sem tempo de mastigar, deglutir, ingerir, saborear, processar”, complementa Vasques.

Entretanto, ele enxerga também algumas falhas neste processo. “Há uma nova configuração social que caminha para a adoção de tecnologias que facilitem a vida das pessoas e as confortem de sentimentos de isolamento e solidão. O problema é que a falta de descanso para a cabeça pode, no fim, acabar com a nossa capacidade de prestar atenção em coisas simples. Observação e reflexão tornaram-se artigos raros e, com isso, o pensamento crítico fica sufocado. O potencial de analisar as coisas, fatos, pessoas, sob diversas perspectivas, desaparece”, reflete.

Relatos de quem enfrenta

S.S, 31, jornalista, assume ser um viciado por informação. Diz estar acostumado com um fluxo bizarro de notícias e histórias – e que não fica sem elas. Mas um fato específico trouxe à tona que, o que parecia apenas uma forma voraz de consumo estava se transformando num transtorno real. “Recebo tudo o tempo todo e, então, vou abrindo janelas com o que quero ler melhor agora ou mais tarde. Uso aplicativos específicos para organizar isso e tagueio [sic.] coisas para ler depois. Se estou sozinho, nem durmo. Viro a noite para acompanhar eventos de diferentes espécies. Tenho tratado em psicoterapia, mas sequer percebo que preciso rever isso para viver melhor”, admite.

Já o gerente de Tecnologia da Informação F.M., 50, diz que usa como referências principais, desde sempre, seus assuntos de maior interesse, justamente pela dificuldade de conseguir consumir e processar tudo e com tamanha velocidade. “Política, marketing, TI e comida são assuntos que prendem mais a minha atenção. É impossível captar tudo ao mesmo tempo. E quando descubro que ‘perdi’ algo, sempre tento me perguntar ‘eu precisava realmente saber disso?’. Creio que, dessa forma, consigo viver conectado, mas só com o que realmente me diz algo”.

“Acredito que a sensação de que não temos mais tempo suficiente para fazermos o que precisamos (ou o que queremos) é em parte devido à possibilidade de estarmos sempre conectados de alguma forma, e isso dá mais margem à distração e perda do foco. Por isso a busca por meditação vem aumentando drasticamente. Por isso muitas pessoas não dormem bem”, ele afirma. O consultor aponta que a meditação garante a centralidade, diminui e eventualmente elimina a insônia, ajuda a enxergar o que é preciso e quais são as reais necessidades do cotidiano, ao buscar uma vida plena, equilibrada, com um propósito maior.

Mas para conquistar o equilíbrio e aproveitar melhor o tempo, por meio da produtividade e bem-estar, é necessário estar disponível para mudar e ter disciplina. “Por serem hábitos recentes, a ioga e meditação entram em nossas vidas mais tarde, quando já temos outros hábitos formados. Isso dificulta a inserção no cotidiano. É muito raro ver uma pessoa que não escova os dentes. Por que será? Porque desde cedo os pais insistem em instaurar este hábito na vida de seus filhos”, completa.

Por isso, de acordo com André, os pais precisam praticar ioga e meditação para dar exemplo aos filhos, como ocorreu na geração dos anos 70 no ocidente. Mas ele se mantém otimista. “Com mais e mais comprovações cientificas, a meditação vai continuar sendo vista como uma necessidade, e continuará chegando nas escolas e lares”.

E, se para além das técnicas, a prática não for a sua “praia”, Vasques dá a dica de como começar a transformar em descartável aquilo que não causa nenhum impacto relevante para sua vida, seu trabalho e suas relações. “Do ponto de vista do usuário, precisamos aprender e entender como nos tornarmos um editor. Criar os critérios ideais de seleção, identificar o que é efetivamente importante, seja para a carreira, para o momento, para o lazer, para com quem convivemos. O que você consome, inclusive na internet, precisa ser necessariamente atrativo ou mesmo fazer sentido. Ainda é possível descartar o perecível. E tudo bem se isso significar ‘perder’ alguma coisa: ela pode simplesmente ser substituída por outra ainda mais prazerosa e interessante. E sem atropelos”.

Juliana Damasceno

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