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Desafios da educação contemporânea, com Anna Penido

Entrevistamos a diretora do Instituto Inspirare, Anna Penido, que discorreu acerca das inovações e práticas pedagógicas no ambiente escolar.

O Inspirare é uma instituição sem fins lucrativos que promove inovações para gerar mais qualidade, equidade e relevância na educação brasileira. Entre os programas do Inspirare está o Porvir, principal portal de inovações educacionais do país, há 7 anos. Através dele, há uma mobilização para trazer a temática da inovação na educação para agenda dos educadores, gestores públicos, especialistas e comunicadores. Atualmente, o grande desafio do projeto é construir uma educação que articule entre teoria e prática.

Para entender melhor quais são os caminhos para uma educação transformadora, entrevistamos a Anna Penido, diretora do Inspirare, jornalista formada pela UFBA, com especialização em Direitos Humanos pela Universidade de Columbia e em Gestão Social para o Desenvolvimento pela UFBA. Ela participou do programa Advanced Leadership Initiative da Universidade de Harvard e coordenou o escritório do UNICEF para os Estados de São Paulo e Minas Gerais.

Anna Penido educação
Foto: Fernanda Pimenta, Agência Bairro-Escola Rio Vermelho

Qual foi o maior desafio que o Inspirare já enfrentou em suas ações para implementação e fomento de novas ideias para a educação?

Anna: O maior desafio que enfrentamos é informar a sociedade brasileira, principalmente aos que estão diretamente envolvidos na educação, sobre a necessidade de revermos o currículo, as práticas pedagógicas e o ambiente que nós criamos nas próprias escolas. Mais do que informar sobre essa necessidade, buscamos instrumentalizar e oferecer referências para que as escolas realmente possam fazer essa mudança. Não com a incorporação de pacotes de equipamentos ou de práticas vindos pré-determinados externamente, mas como uma mudança cultural. Através dela, a comunidade escolar percebe o seu novo papel diante das novas realidades, tanto dos estudantes quanto da sociedade. Assim, essa transformação se dá a partir da mudança de mentalidade e práticas advindas de um processo interno de construção de novos caminhos.

Qual é o maior desafio para a educação pública nos próximos anos? Como você enxerga a implementação da nova Base Nacional Comum Curricular? 

Anna: Dentre os principais desafios estão justamente a construção e, principalmente, a implementação de políticas que possam gerar a transformação de currículos, práticas pedagógicas e ambiente escolar. Para isso, é fundamental que possam se criar, de fato, as condições para a implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), por exemplo. Afinal, ela já traz uma série de inovações em relação à concepção de Educação Básica voltada à promoção do desenvolvimento pleno e integral dos alunos nas suas múltiplas dimensões.

Através das 10 competências gerais previstas, conseguimos apontar quais são as habilidades, atitudes e conhecimentos que os alunos precisam adquirir para estarem aptos a serem agentes ativos e transformadores da realidade contemporânea. Além disso, é fundamental que a gente mude a formação dos professores, tanto os que estão iniciando na profissão como aquele que já está atuando nas escolas, para que eles possam vir com uma outra cultura e com uma outra prática mais alinhada aí com as tendências, demandas e necessidades educacionais de hoje.

educação inspirare

++ Sobre a BNCC ++

Anna Penido afirma que a Base Nacional Comum Curricular tem sido uma política que aponta para uma educação mais contemporânea, ainda que precise de mais aprofundamento na hora das redes e escolas elaborarem seus currículos inspirados na BNCC.

Ela destaca que a BNCC apresenta a proposta do novo Ensino Médio e classifica como “diretrizes importantes e interessantes” a flexibilização curricular, o foco no projeto de vida do aluno e o maior nível de participação e protagonismo do estudante no seu processo pedagógico. Anna Penido afirma que estes são importantes indicativos de conexão do ensino médio com as tendências e soluções que se mostram eficazes para a construção de uma escola mais significativa para os alunos do século 21.

No século XXI, tudo envolve tecnologia. Qual é o papel da tecnologia como ferramenta para o aprendizado? Que tipos de benefícios ela pode trazer para a educação individual e coletiva dos alunos?

Anna: A tecnologia nos oferece novas oportunidades para que possamos nos educar, aprender e nos desenvolver. Para isso, é fundamental que se entenda que ela é uma ferramenta e que não exclui o papel do educador, uma vez que a função de educar é eminentemente humana. A gente pode usar a tecnologia para facilitar o acesso às informações e ao conhecimento e gerar envolvimento e engajamento do aluno, possibilitando que ele use o conhecimento e as competências que ele vai desenvolvendo. Mas a tecnologia não suprime a necessidade da ter adultos de referência, que vão facilitar o processo de aprendizagem e ajudar os alunos a fazerem uma curadoria das tecnologias e informações que eles obtêm.

anna penid educação
Foto: Reprodução/CBAC

Podemos usar a tecnologia para ampliar o acesso dos estudantes às mais diversas fontes de conhecimento e informação e oferecer diferentes estratégias de aprendizagem para diferentes perfis de alunos. A partir dos seus interesses, do seu próprio ritmo e das suas características, nós podemos personalizar a educação.

Além disso, a tecnologia facilita o cotidiano do educador com a disponibilização de materiais educativos mais eficientes, plataformas que se beneficiam da inteligência artificial para ajudar o professor à acompanhar e personalizar suas estratégias pedagógicas, automatização de algumas ações como correção de provas, gestão de informações sobre o próprio desempenho dos alunos e gestão de dados.

Muitos educadores reclamam que está mais difícil educar os jovens de hoje em dia. Como você enxerga essas queixas? O problema está na educação que vem de casa ou no nosso modelo de ensino?

Anna: Precisamos construir ambientes e práticas pedagógicas que possam ser mais estimulantes e focadas em uma aprendizagem mais “mão na massa”, que é como essa geração aprende melhor. É importante trabalhar uma série de questões ligadas ao autoconhecimento, ao projeto de vida desses alunos e questões relacionadas aos seus aspectos socioemocionais. Porque, muitas vezes, o que dificulta o aluno de aprender são questões de outra natureza que não só cognitivos.

Os educadores conhecem muito pouco sobre seus alunos e como eles se comportam. A gente precisa aprofundar esse olhar e entender que essa escola que está aí, não engaja e não interessa aos estudantes.

Por outro lado, o envolvimento da família é superimportante para que a escola promova o desenvolvimento pleno e integral. É preciso trazer a família para essas conversas, também. A escola precisa orientar a família acerca do que ela precisa fazer para garantir essa formação plena e que os alunos valorizem mais da escola, o próprio aprendizado, o conhecimento e o seu desenvolvimento integral.

Com o mundo cada vez mais conectado, qual é o papel das mídias (em especial as mídias digitais) no processo de aprendizagem?

Anna: Hoje, elas exercem um fascínio e influência muito grande sobre os estudantes. Muitos deles tem uma vinculação muito grande com YouTubers, redes sociais e blogueiros. Então, podemos trazer as mídias como materiais pedagógicos, mas também envolver os alunos na produção de mídia.

A mídia é uma ferramenta poderosa para engajamento, ampliação de acesso ao conhecimento e, principalmente, uma ferramenta de desenvolvimento mais amplo das capacidades desses estudantes.

Assim, eles podem usar os seus conhecimentos de forma aplicada, desenvolvendo outras habilidades, como o pensamento crítico, a capacidade de se comunicar em diferentes plataformas, o uso da cultura e da comunicação e das tecnologias digitais para intervir na realidade e difundir suas próprias ideias sobre diferentes temas.

Algumas tendências importantes na educação, para além da aprendizagem:

  • Mais mão na massa;
  • Uso de tecnologia para maior interação e autoria do próprio estudante no seu processo de ensino-aprendizagem;
  • Oferecer oportunidades para que os alunos tomem decisões importantes para a escola, através da criação de grupos coletivos e grêmios;
  • Poder de escolha aos alunos sobre componentes curriculares que eles querem aprofundar;
  • Uso de dados e evidências em um acompanhamento em tempo real, para que saibamos se o aluno está aprendendo e como está aprendendo – indo além da avaliação só no final de um bimestre ou trimestre;
  • Mudar o ambiente da escola para permitir práticas mais participativas. Ao invés de carteiras enfileiradas, oferecer móveis mais flexíveis que permitam diferentes disposições e arrumações tanto dentro como fora da sala de aula;
  • Aproveitamento de outros espaços para que haja mais mobilidade e maior diversidade na própria infraestrutura e ambiente físico em que o aprendizado acontece;
  • Professor é menos transmissor e mais um facilitador e designer da aprendizagem. Ele dele compreender as necessidades dos alunos e encontrar soluções pedagógicas de forma que cada aluno possa aprender e avançar, sem que nenhum fique para trás.
Maria Gabriela Zanotti

Maria Gabriela Zanotti

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