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Conteúdo infantil é lugar de publicidade?

Em meados dos anos 90, ir até a padaria era algo que implicava um ritual:  minha mãe comprava um maço de cigarros e eu também ansiava por uma “tragada”. A tragada, no caso, era nos cigarros feitos à base de cacau e não de nicotina. Os “Cigarrinhos de Chocolate”, da PAN, marcaram a infância de quem viveu entre 1952 e 1996. A guloseima estampava suas embalagens com imagens de crianças com cigarros nas mãos. Em 1996, a PAN teve de reformular a comunicação do produto para algo politicamente correto e alterou o nome para “Rolinhos de Chocolate”, que posteriormente viraria “Chocolápis”. A necessidade da mudança foi gerada pelo estímulo ao tabagismo infantil, mas vale lembrar que, hoje, toda publicidade focada no público infantil é ilegal. “As crianças são hipervulneráveis às relações de consumo. Apesar de a lei existir, muitas empresas insistem nessa prática. Não somos contra o mercado publicitário, mas somos a favor da mudança do público-alvo da mensagem publicitária.”, explica Livia Cattaruzzi, advogada do programa Criança e Consumo, do Instituto Alana.

As crianças e a Rede

O conteúdo infantil na Internet, especialmente no Youtube, é um dos segmentos que mais cresceu nos últimos anos. No mundo digital é possível encontrar muita coisa boa, de aplicativos que ajudam na alfabetização de forma divertida até vídeos, com mais de 3 milhões de visualizações, estimulando os pequenos a lavar as mãos. No entanto, uma das últimas edições do programa GREG NEWS, da HBO, fez barulho ao abordar os conteúdos infantis na Internet – e a publicidade escondida neles.

O principal alvo do humorista Gregório Duvivier foi o youtuber Felipe Neto, punido pelo CONAR por enaltecer o consumismo infantil em um de seus vídeos em que propunha um desafio que tinha como base comprar coxinhas para concorrer a um dia na mansão dos irmãos Neto, no Rio de Janeiro.

Em entrevista publicada no site da revista Veja, Felipe Neto se defendeu e disse que a proibição de toda propaganda infantil é burra. Ele acredita que o modelo a ser adotado aqui deveria ser semelhante ao dos EUA, onde a Children’s Advertising Review Unit  (braço infantil do programa de autorregulação da indústria de publicidade) regulamenta a publicidade infantil. Neto completa, dizendo que o dever de conferir se uma criança está assistindo ao conteúdo voltado para um público adulto é dos pais e não do estado.

“Os pais têm, sim, o papel de orientar, mas é impossível competir com a avalanche de publicidade que as crianças recebem. As dicas que posso dar são que eles podem e devem educar as crianças sobre consumo. Ensinando e pondo limites”, lembra Livia, do Instituto  Alana. Atuando desde 2016, a iniciativa Criança e Consumo do instituto denunciou 15 youtubers mirins por publicidade na Internet. Em 2017, revelou a mesma prática pela marca Mattel, que foi autuada pelos Ministério Público.

Apesar do sucesso com os pequenos, a maior parte do público de Felipe Neto ainda é composto por adolescentes. “Ele não escolheu fazer sucesso com as crianças, mas simplesmente aconteceu e ele ainda está se adaptando, procurando ajuda profissional para entender essas mudanças em sua carreira”, comenta o especialista em comportamento digital Thiago Valadares, do site Etiqueta Virtual.

Pais e filhos

Para o pai Luiz Felipe Melo, 29, a publicidade voltada para o público infantil é cruel. Sua filha Maria Julia, 6, é super conectada na Internet. Depois que ela descobriu que a mansão de Felipe Neto fica no Rio de Janeiro, a pequena, que mora em São Paulo, começou a pedir para ir mais vezes até a capital fluminense e para comer a coxinha divulgada pelos irmãos Neto, mesmo sem gostar do sabor.  

Erica Fernanda Thomaz, 27, viveu ao pé da letra o que é ficar “doente de vontade”, quando sua filha apresentou febre e não queria saber de comer após ter assistido a propaganda de um brinquedo, que a mãe não comprou. “Uma criança pode apresentar um quadro sintomatológico diante de uma negativa dessa natureza”. explica a psicóloga Luciane Costa, da escola FourC, que assegura que ninguém fica doente fisicamente por ouvir um não.  

“Há aspectos sociais e afetivos relacionados ao consumo, quando o ganhar presentes está associado a atenção e amor dos pais por essa criança. É muito perigoso associar atenção, afeto e adequação a bens materiais e ao consumo de forma geral”, alerta ela. Segundo uma pesquisa britânica, 41% das crianças navega na Internet sem a supervisão dos pais. É importante estar ciente que, nesse mar de informação, é perigoso afogar-se no estímulo ao consumo travestido de entretenimento.

Ilustração: Raphael Mortari

Fred Di Giacomo

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