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Aprendizagem criativa em escolas públicas

Aprendizagem criativa em escolas públicas: é possível?

Entrevistamos o João Guilherme Camargo, co-fundador Escola do Inventor de Ribeirão Preto – um centro de desenvolvimento e aplicação de métodos ativos de aprendizagem com foco em STEAM.

Ali, eles acreditam que o caminho é a educação maker por um custo acessível e para todos. Mas quando o assunto é escola pública ou ambientes escolares com pouca infraestrutura, como é que fica?

Conversamos com o João Guilherme para saber mais sobre as motivações para a criação da Startup e as possibilidades de desenvolvimento da aprendizagem criativa em diferentes realidades.

João Guilherme durante o evento Bett Educar (Foto: Josiane Lopes/4LAB)

Qual é o caminho para inciar a formação dos professores pela Escola de Inventor? 

O gargalo está no professor, tudo começa com ele. Quem nos procura tem aquele perfil mais mão na massa e já tem algum interesse pela cultura maker, mas não sabe muito bem por onde começar. Esse processo de perceber que algo precisa mudar, eu encaro de uma maneira estruturada a longo prazo. Os profissionais começam a perceber mudanças efetivas no comportamento da sala, como o simples fato do aluno não prestar mais atenção.

Quando o professor perde a criatividade e a vontade de criar coisas novas?

Todas as análises são multifatoriais. Pensando nesse sentido, o primeiro impeditivo está na linha de formação dos professores. A cultura maker é muito calcada em ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Mas tudo isso, praticamente, não é abordado ao longo da formação – e o foco fica no letramento. Ou seja, o professor acha muito legal ter uma aula mais criativa, mas ele não aprendeu a dar. A segunda coisa é a questão de que, muitas vezes, os professores não aprenderam a construir projetos colaborativos. Isso faz com que eles tenham pouca experiência interdisciplinar e dificulta a implementação de projetos básicos. A gente sabe que a escola não funciona mais como antes.

Ao falarmos de escolas públicas, a infraestrutura pode ser um grande desafio. Como superá-lo? 

Há duas vertentes na educação brasileira, representadas por dois pesquisadores. O primeiro é o Leo Burd, que está no MIT Media Lab. Ele acredita que a educação maker pode ser feita com qualquer coisa, seja papelão, pequenos motores de DVD ou cola quente. O segundo é o Paulo Blikstein, que é professor da Universidade de Stanford. Ele defende que, para ser educação maker, tem que ter máquina de corte, impressora 3D, kit de prototipagem. Nós acreditamos que ambos são válidos mas, na prática, para a educação maker ser efetiva, ela precisa ser de baixo custo. Mesmo usando coisas mais baratas e reutilizando materiais, você consegue ainda fazer uma aula de aprendizagem criativa. Para resolver o problema da infraestrutura, nós fazemos kits de baixo custo e vasculhamos novos materiais que possam ser substituídos, para que os professores de escola pública acreditem que eles também podem ensinar assim.

Mas e aqueles professores que possuem dificuldades em inovar? 

Não basta só dar a formação profissional, temos que oferecer um apoio para colocar tudo isso em prática. Percebemos que a vontade quando vem do profissional, tem um potencial maior de ser replicada.

Como o professor de escola pública pode começar a propor atividades que envolvam a aprendizagem criativa?

O primeiro passo é criar empatia do aluno com esse tipo de abordagem. Indico que ele procure grupos que já discutam sobre o assunto, como a própria Rede de Aprendizagem Criativa, porque ali já têm bases de dados com oficinas de baixo custo, que podem ser feitas com materiais que estão acessíveis para qualquer um. Assim, esse professor consegue sentir como ele atua com esse tipo de abordagem, bem como a resposta dos alunos. O segundo momento é procurar conteúdos que possibilitem uma curva de aprendizagem, e criar um sentido metodológico. Ou seja, atividades que proponham uma evolução em sala e com diferentes etapas.

Quais são as dificuldades enfrentadas ao longo da aplicação das ideias e cultura maker? 

Quando vamos dar as formações, nós passamos as primeiras seis horas do dia explorando a criatividade dos professores. Muitas vezes, eles acham que a figura do professor representa o detentor do conhecimento. Essa é uma das barreiras encontradas, justamente por estarem muito acostumados a levar as aulas sempre do mesmo jeito. Então, quando você propõe uma aula mais aberta, pode ser que o projeto proposto não chegue ao fim ou não dê certo. Isso gera insegurança ao professor, já que que o aluno pode perguntar coisas que ele não saberá no momento. A primeira etapa é sempre nesse sentido, de colocar os professores em situações desafiadoras, que façam ele pensar em problemas e propor soluções criativas. A partir disso, nós vamos para formações de gestão criativa com técnicas que permitem que os professores organizem e otimizem a sala de aula durante a execução dos projetos.

Quer se aprofundar no assunto?

Trouxemos alguns links interessantes que podem ajudar você a desenvolver um plano de aula mais mão na massa:

Currículos para ensino de lógica de programação

A Code.org é uma organização sem fins lucrativos dedicada a expandir o acesso à ciência da computação em escolas e aumentar a participação das mulheres e das minorias não representadas.

O Programaê! é uma iniciativa que facilita a introdução da linguagem de programação e o pensamento computacional nas práticas pedagógicas, garantindo subsídios para que os alunos sejam protagonistas desse processo.

A missão do Code Club é fazer com que cada criança tenha a oportunidade de aprender a programar. Fornecem material de ensino que apoia a realização de atividades extra-curriculares ligadas à programação de computadores.

Formação para professores e currículos em tecnologia, alinhados à BNCC:

É um Currículo de Referência em Tecnologia e Computação, que tem como principal objetivo oferecer diretrizes e orientações para apoiar redes de ensino e escolas a incluir os temas tecnologia e computação em suas propostas curriculares.

Resultado de uma parceria com o Ministério da Educação, o Itinerário Formativo em Cultura Digital está totalmente alinhado às competências previstas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Os conteúdos, previstos para uma grade de 400 horas, estão organizados em unidades compostas por três módulos.

Maria Gabriela Zanotti

Maria Gabriela Zanotti

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