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Acima da velocidade da luz: nós precisamos de tudo isso?

Nos tempos atuais, informação virou quase um bombardeio – e nem precisamos sequer fazer um movimento para que tudo (ou quase) chegue ao nosso conhecimento.

Mudamos a marcha, mudamos a velocidade. Na era pré-internet e mídias sociais, as pessoas encontravam atividades bastante diversificadas para ocupar o seu tempo livre. Em alguns, a sensação é de certa nostalgia, relembrando o desenho na TV ou o cinema – que, aparentemente, solucionavam aqueles espaços a serem preenchidos, especialmente nas chamadas “horas de lazer”.

Mas hoje, ao menor sinal de liberdade, de um momento sem ter algo para fazer, parecemos sofrer de uma angústia e uma ansiedade totalmente novas. É possível que o crescimento do uso das mídias sociais tenha contribuído, de forma gradativa, para uma velocidade imposta pelo tempo contemporâneo? E que, por consequência, nos força a uma espécie de produtividade absoluta? Nesses tempos tão insanos, em que até dormir passou a ser algo considerado um “desperdício”, você já teve efetivamente tempo para parar e pensar nisso?

Excesso ou conectividade?

De acordo com o consultor André Elkind, que ensina técnicas de meditação para equipes de empresas e organizações, a sobrecarga de informações prejudica o foco, a concentração e a produtividade no trabalho. Além disso, afeta as relações sociais. “Quantas vezes estamos em uma conversa com amigos e paramos para olhar uma informação no celular? Isso tira a atenção e a presença daquele momento”, ele afirma.

Para o consultor, a busca das pessoas por notícias em tempo real, atualizações de alta velocidade nas redes sociais e de respostas nos aplicativos de conversa não é exatamente uma obsessão, mas uma mistura de ansiedade e disponibilidade da informação. “Acessamos o que mais nos interessa. A Era da Conectividade nos proporciona a vantagem de buscarmos o que desejamos e não sermos dependentes do assunto disponível, como era há 20 anos. A busca customizada da informação e a disponibilidade dos assuntos têm um valor enorme para nossas vidas. É o uso exacerbado que nos prejudica, não a conectividade”.

Sobre as pesquisas científicas que já classificam transtornos de saúde ligados à tecnologia, exemplo da nomofobia – o pânico de ficar sem conexão, André informa que eles estão relacionado com a ansiedade, sendo um desequilíbrio psicológico que deve ser tratado com o auxílio de profissionais capacitados. Ele também destaca que, segundo a Organização Mundial da Saúde – OMS, em levantamento publicado em fevereiro de 2017, o Brasil tem o índice mais alto do mundo em relação aos distúrbios de ansiedade.

Saúde é o que interessa?

Impulsionados por um modelo de algoritmos cujas regras são desconhecidas do grande público, estas informações ganham as mídias sociais e plataformas de uma forma não-linear. Soma-se a isso o grande volume de produção e distribuição de conteúdos em múltiplos formatos e dispositivos. Beirando o surreal, eles fazem com que seja humanamente impossível acompanhar tudo.

A ansiedade – e, em alguns casos, até mesmo processos depressivos – provocada por este modelo é tema de diversos estudos. Já há até nomenclaturas utilizadas para definir as síndromes que nos consomem. F.O.M.O. ou Fear of Missing Out (medo de perder algo, em português) é aquele medo de estarmos perdendo alguma coisa importante. F.O.B.O. ou Fear of Being Offline (medo da desconexão digital) se caracteriza pelo desespero de ficar sem acesso à conectividade, deixando o indivíduo perdido. E, por fim, o F.O.D.A. ou Fear of Doing Anything (medo de fazer alguma coisa, em uma tradução literal), que consiste no receio de tomar decisões que podem se mostrar erradas e acaba paralisando os indivíduos.

A saúde mundial, curiosamente, foi um dos principais temas do SXSW 2018, um dos mais prestigiados eventos de tecnologia do mundo, realizado no primeiro trimestre do ano. A psicóloga Ramana Durvasula, professora na Universidade Estadual da Califórnia, em Los Angeles, e especialista em narcisismo, abordou em sua palestra, por exemplo, como essa característica humana é incentivada o tempo todo pela tecnologia, especialmente no uso das mídias sociais, e acaba por “destruir a saúde mental das pessoas”.

“As consequências para a saúde das pessoas já estão começando a aparecer. Várias pesquisas já apontam o impacto do excesso de tecnologia para a visão, com o crescimento de casos de fadiga visual, que podem levar a outras doenças. Há médicos sugerindo o uso de lentes fotossensíveis para reduzir tal impacto. E isso é muito perigoso”, contou a diretora de desenvolvimento de novos negócios da Record TV e consultora, Aline Sordili. Ela esteve no SXSW deste ano e relatou que, curiosamente, as palestras com temáticas mais preocupantes foram ministradas pelos principais “inventores” das plataformas que hoje, em sua maioria, têm outras ocupações. Estariam eles assustados com o próprio “monstro” que criaram?

Elkind dá algumas dicas de como superar esses momentos de ansiedade: a prática da meditação, exercícios físicos em alternância com a ioga, comer alimentos saudáveis e frescos, de preferência sem agrotóxicos. “A meditação é capaz de trazer uma autorregulação psicoemocional, foca a mente no que é importante, diminuiu drasticamente a ansiedade e evita o uso exacerbado da informação”. Ele completa que as atividades que nutrem o emocional têm que vir do trabalho, da maneira como as pessoas se relacionam umas com as outras e dos tipos de entretenimento escolhidos. “As crianças precisam das mesmas atividades para tirá-las dos aparelhos digitais”, diz.

Juliana Damasceno

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