4Lab Co

10 dicas de como não criar filhos machistas

As identidades masculina e feminina foram construídas ao longo dos séculos com a premissa da superioridade dos homens. Essa separação de papéis, que resulta em atitudes machistas, perpetua-se por palavras e hábitos repetidos pelos filhos e cria uma resistência a quem se propõe a combatê-lo. Mas como negar seus efeitos na atualidade se, até maio de 2018, as mulheres da Arábia Saudita não podiam dirigir automóveis? Ou aceitar que, apesar de serem maioria com ensino superior no Brasil, elas ganham 75% do salário médio deles (segundo o IBGE)? A missão, portanto, é desconstruir. A seguir, listamos algumas reflexões sobre como educar filhos e filhas livres de comportamentos misóginos.

Marido não deve ‘ajudar’ nas tarefas de casa e sim dividir. Igualmente os filhos devem ser estimulados sem os rótulos de atividades ‘de menino’ e ‘de menina’, como enaltece a premiada escritora nigeriana Chimamanda Adichie, em seu livro Para educar crianças feministas: um manifesto (Companhia das Letras, 2017): “Lembro que me diziam quando era criança para ‘varrer direito, como uma menina’. O que significava que varrer tinha a ver com ser mulher. Eu preferiria que tivessem dito para ‘varrer direito, pois assim vai limpar melhor o chão’. E preferiria que tivessem dito a mesma coisa para os meus irmãos”.

 

“O papel do pai só é diferente do da mãe por questões biológicas: não podemos amamentar. Participo de todos os momentos, todos os dias. Se o pai não é próximo ao filho na sua criação, por isso ser ‘coisa da mãe’, como se pode criar uma família com outros valores senão ligados ao machismo?”, reflete Felipe Ramos, cofundador do Papo de Homem, comunidade com conteúdo colaborativo voltado à transformação masculina.

 

Ser humano fica triste, sente medo ou se emociona, independentemente do sexo. E inibir sentimentos pode causar reflexos negativos no futuro. Como um homem adulto vai lidar com suas emoções se, quando precisou de compreensão e acolhimento, foi repreendido por uma crença de que não poderia demonstrar fraqueza? “O machismo roubou do homem o direito de ser sensível”, afirma a psicóloga e especialista em sexualidade Ana Luiza Garcia, em artigo publicado no portal Psicologia Acessível.

Homens têm mais interesse em acompanhar esportes do que mulheres (69% deles contra 46% delas, segundo a pesquisa Mulheres e esportes realizada em 2015 pelo Ibope Repucom). Para Carolina Firmino, mestre e doutoranda em Comunicação pela Unesp em estudos de gênero e empoderamento feminino, falta estímulo. “Essa identificação quanto à prática e ao consumo de modalidades esportivas está relacionada a uma sensação de pertencimento. Muitas meninas não acreditam que o esporte também seja um ambiente para elas. Uma pesquisa desenvolvida em 2016 pela marca de absorventes Always apurou que a baixa autoestima e a crença de que esse universo é mais adequado para os garotos provoca esse distanciamento. Os dados da pesquisa mostram que 74% não se sentem encorajadas pela sociedade a praticar esportes. Por isso, inserir as meninas no contexto esportivo — estimulando a prática e levando a jogos com referências femininas — é um dos caminhos para mudar esse quadro”, comenta a pesquisadora.

Enquanto meninos desbravarem o mundo com seus carrinhos e as meninas emularem a solitária lida doméstica entre bonequinhas e panelinhas, os estereótipos se perpetuarão. “Na minha casa, procuramos deixar nosso filho à vontade para brincar com carrinhos e bonecos. Usar azul ou rosa. Nós o criamos para ser feliz e pleno. Seu futuro vai ser muito parte de suas decisões. Não das nossas”, diz Felipe Ramos, do Papo de Homem, que tem meio milhão de seguidores no Facebook. 

Estimular meninos a ter sensibilidade e meninas a ser fortes não os transforma em homossexuais em potencial. Independentemente da orientação sexual (que vai se manifestar a seu tempo), meninos e meninas devem ser gentis, meninos e meninas devem experimentar autonomia. Enfim, devem ter uma infância plena.


Puxar o constrangedor canto do ‘Com quem será?’ em um aniversário, estimular beijinhos entre os bebês ou chamar a filha do amigo de “minha norinha”… Desnecessário colocar os pequenos num papel que não lhes cabe. “Um adulto saudável teve uma infância cheia de estímulos positivos, de afeto. A infância não é o período de antecipar situações que se viverão mais adiante. Se estimuladas para situações que não estão na fase de desenvolvimento, isso será antecipado”, alerta em seu blog a pedagoga Vanda Minini, doutora em Psicologia da Educação pela PUC-SP.

Profetizar que o menino vai ‘destruir corações’, enquanto ela quando crescer ‘vai dar trabalho’: expressões como essas acabam por legitimar o assédio masculino e a impor culpa a quem é vítima, no que se refere à exposição da beleza feminina. Isso num país em que 42% das mulheres declaram já ter sido assediadas sexualmente, segundo pesquisa do Datafolha publicada em janeiro deste ano. Para mudar esse quadro, é preciso desenvolver entre as crianças conceitos de integridade corporal e consentimento.

A figura da princesa à espera do príncipe encantado (o provedor) sugere fragilidade. Ou, ainda, que uma mulher só se realiza com casamento e maternidade — que podem sim ser aspirações, desde que pautadas em cumplicidade, não em dependência. Pode gostar de princesas? Claro. Mas é bom abrir os olhos para personagens como Moana, Mulan e Tiana, que inspiram meninas (e meninos) a perseguir sonhos.

 

Muitos homens se sentem acuados e até ofendidos por pautas feministas, porque não entendem que, enquanto o machismo oprime mulheres, o empoderamento feminino busca igualdade. “O homem está precisando se agrupar para discutir seu papel. Enquanto as mulheres avançam a olhos vistos, juntas, unidas, deliberando e construindo um futuro mais justo e com equidade, os homens, muitas vezes, estão olhando todo esse movimento das mulheres e continuam paralisados”, opina Felipe Ramos, que idealizou o Papo de Homem exatamente com o propósito de encontrar o ‘homem possível’ nesse novo, necessário e incontornável cenário que pais e mães precisam compreender e aplicar na criação de seus filhos.

Fernando Beagá

0 comentários